À sombra do castanheiro
O Tio Ambrósio não tem aparecido no povo, para conviver connosco nesta quadra dos santos populares. Olhe que temos passado alguns bons momentos, sobretudo quando se arma uma cantoria à desgarrada, com os
vários participantes a fazerem valer os seus dotes de improvisação.
Bem gostava eu dessas coisas, Carlos! Mas agora já me custa sair à noite. Tu sabes como é! O sangue já me não ferve nas veias como antigamente...
Aquilo é um divertimento próprio para todas as idades, Tio Ambrósio! Uns saltam as fogueiras, outros bailam ao som da concertina, outros contam umas anedotas.
Há de tudo, como na farmácia...
Mas do que eu mais gosto é de uma boa desgarrada, Tio Ambrósio! E, de vez em quando, não me contento apenas em ouvir. Se vem a talho de foice, também sou bem capaz de
engendrar uma quadra e entrar na roda da cantoria. Ainda um dia destes, nos festejos do Santo António, a coisa animou. O Sanguessuga pegou na sanfona, e vai daí os parceiros
começaram a chegar-se e foi de arromba. Quem deu o mote foi o Aparício, com uma quadra de crítica política. Cantou assim:
No país do faz de conta,
Tudo muda, tudo vira:
O que era ontem verdade
Agora já é mentira!
Não deixa de ter algum acerto, essa do Aparício! De facto, os nossos políticos mudam de discurso com
muita facilidade, aprovando hoje o que ontem contestavam...
Por isso mesmo o Aleixo, que aparece sempre nestas coisas glosou o Aparício, especificando mais o tema. E saiu-se com esta:
Casaca, vira casaca,
Ó casaca vira, vira!
No meio de tanta caca,
Até a verdade é mentira!
E como ninguém lhe desse resposta, deixou passar a volta da sanfona, e quando chegou o devido tempo justificou a sua anterior afirmação, cantando:
É verdade a corrupção?
É verdade e é mentira!
Quando se tem o bastão
Tudo muda, tudo vira!
O bastão significa aí a tomada do poder, Carlos!
Evidentemente, Tio Ambrósio! Pelo menos foi isso que eu entendi
naquele momento, de modo que também meti a minha colherada. E saiu-me assim:
O povo paga e não bufa?
Diz-me a tua opinião!
Depende se estou no governo,
Ou se estou na oposição!
Fizeste a pergunta e deste a resposta!
Quem deu a resposta foi o Sanguessuga. Assim:
Não mudou o senhor Freitas
Pra voltar a ser ministro?
É da esquerda ou das direitas?
Não entendo nada disto!
E logo o Aparício voltou à carga:
Uns dizem que sim, que sim,
Dizem outros não e não!
E eu julgo cá pra mim:
Toda a gente tem razão!
A coisa estava mesmo animada, Carlos!
E continuou, Tio Ambrósio! O Lopes achou por bem sair em defesa do atingido e cantou:
Respondo plo professor:
Não se enganem, nem se iludam!
Eu mudei para melhor:
Os burros é que não mudam!
Não gostei da tirada do Lopes! E não me contive sem responder:
Diga ele o que disser,
É tudo mais que evidente:
O sô Freitas quer é ser
Candidato a presidente!
És capaz de ter razão, Carlos! O futuro o dirá, mas eu penso que o finório anda por ali a espreitar o furo!