À Sombra do castanheiro

– A morte é mesmo purificadora, Tio Ambrósio!

– Se é, Carlos! Purificadora das intenções, das inteligências e das vontades. Mas não entendo a que possa vir uma afirmação tão seca, tão sem rodeios...

– Olhe! Lembrou-me disto esta semana, quando soube da passagem do companheiro Vasco e do Tio Álvaro das Amplas. O Tio Ambrósio recorda-se daqueles tempos, do verão quente de setenta e cinco, quando estivemos a escassos centímetros de uma guerra civil?

– Foi por um triz, Carlos! E assim, à distância de três dezenas de anos o que mais me continua a admirar é o facto de uma minoria ter estado prestes a dominar um povo que pretendia um caminho totalmente diferente daquele que lhe era imposto.

– Pois a mim, o que me faz verdadeiramente ficar de boca aberta são as afirmações de alguns dos nossos políticos, a começar pelo ex-presidente Soares, que, agora que ambos entregaram a alma ao Criador, quase fazem deles santos para botar nos altares. Aquilo foram tudo boas intenções, foi tudo convicção de servir o povo. Está a topar, Tio Ambrósio?

– É um hábito muito nosso, este de, quando alguém passa desta para melhor, descobrirmos virtudes naquilo que nunca o foi, de louvarmos o que não se fez e de encontrarmos justificação para todos os erros e mesmo para algumas patifarias...

– Em resumo, continuamos a ser um povo de brandos costumes. Mesmo quando alguém nos quis conduzir para um totalitarismo atroz, quando alguém pretendeu quitar-nos a liberdade de expressão e de pensamento... ainda
assim, no momento de prestar contas, arranjamos sempre modo de tudo desculpar ou até de transformar o erro em virtude e o fanatismo ideológico na mais comezinha das rectas intenções.

– E coloca-se uma pedra sobre o assunto, Carlos!

– Eu tenho alguma dificuldade em ser assim, Tio Ambrósio! E não se trata de botar de lado a obrigação que todos nós temos em perdoar a quem nos tenha ofendido. Acredite que eu perdoo do fundo do coração. Mas a história não se pode apagar, com se os factos nunca tivessem existido, como se muitas pessoas de bem não tivessem sido perseguidas, como se muitas figuras respeitáveis não tivessem sido ultrajadas publicamente.

– Por uns momentos pareceu-me ver-te vestir de novo a pele do militante daquele célebre partido dos homens bons do Cabeço. Foi há tantos anos que já nem me recordo do nome...

– Era o MHSM, ou seja o Movimento dos Homens Sem Medo, que vossemecê apoiou desde a primeira hora, e que serviu para criar no nosso povo um espírito de resistência contra aquilo a que os partidários dos agora defuntos chamavam de PREC, ou seja Processo Revolucionário em Curso. Foram tempos de luta, Tio Ambrósio!

– Talvez um dia alguém venha a escrever a história desse período atribulado, atribuindo as culpas a quem elas pertencem, e pondo em destaque a firmeza com que o nosso povo rejeitou a tentativa de lhe vergarem a cerviz, impondo-lhe um regime muito mais autoritário e totalitário do que aquele de que acabava de se libertar.

– O Tio Ambrósio podia dar uma ajuda! Bastava aproveitar estas tardes, aqui à sombra do seu castanheiro, e começar a coligir as suas memórias. Assim como quem não quer a coisa, estava a prestar um óptimo serviço às gerações vindouras.

– Outros o farão, Carlos! Eu, pelo menos, espero que o façam, para que se não perca a memória de um dos momentos mais críticos da nossa vida colectiva da segunda metade do século passado. Para te ser franco, eu penso que nem a anarquia que se seguiu à implantação da república foi tão atentória dos direitos e da dignidade dos cidadãos como esta tentativa, felizmente frustrada, de impor ao nosso povo um regime vermelho e colectivista.

– Mas nem esse passado pouco glorioso nos deve fazer esquecer as agruras do presente...

– Pois não, Carlos! De qualquer modo, vendo as tribulações de agora, pode servir-nos de consolo o pensamento de que, se "a muralha de aço" não tem sido desmantelada e "as amplas liberdades" têm continuado a colectivizar os meios de produção, estaríamos bem pior. Antes pobres e livres, do que igualmente pobres e acorrentados!

– Eu não lhe disse que continuamos a ser um povo de brandos costumes?

– E resignados com a nossa sorte, Carlos!

– Alguns, Tio Ambrásio! Eu cá sou daqueles que acreditam que ainda é possível mudar o rumo da história!