À sombra do castanheiro
- É tempo de vindimas, Tio Ambrósio! E, pelos vistos, vossemecê ainda não fez a sua.
- Não há pressa, Carlos! Como tu sabes, eu também já não vindimo mais de meia dúzia de poceiros. Mas o que colho gosto de colher maduro!
- 0 Liberato também é dessa opinião. Pouco, mas de grande qualidade! De resto, já se contam pelos dedos de ambas as mãos os agricultores do Cabeço que se dão ao trabalho de fabricarem o seu próprio vinho. Quase todos pegam nas uvas e vão levá-las às adegas cooperativas da região. 0 lucro é o mesmo e com metade da canseira.
- E tu? Fazes como os outros?
- Eu fico pelo meio termo, Tio Ambrósio! Neste aspecto sigo as passadas do meu amigo Viola de Almalaguês, que manda para a cooperativa toda a sua produção menos a duma vinha mais assoalhada, com que costuma uma pomada de se lhe tirar o chapéu. Vossemecê nunca entrou na adega do amigo Laurindo?
- Há muitos anos que não passo por essas bandas, Carlos! Nesta idade já me não puxa, como noutros tempos, para fazer o papel de andarilho. No entanto se, um dia, lá mais para a primavera, o meu afilhado Jacinto se dispuser a levar-me lá, terei todo o prazer em fazer uma estação em casa do amigo Laurindo para fazer as honras às águas que, pelo que me dizes, são de altíssima qualidade!
- Do melhor que há, Tio Ambrósio! Mas não são as únicas aqui pelas redondezas. Outras águas que vale a pena provar brotam ali para as bandas do Barcouço, na adega de outro bom amigo, o senhor Pascoal. Conhece, Tio Ambrósio?
- Não tenho esse prazer, Carlos! Mas as referências que me chegam sobre as águas dessa região costumam ser não apenas das mais laudatórias, mas verdadeiramente encomiásticas. Até o meu compadre Tomás, com quem, por vezes, dou dois dedos de conversa, me tem falado desse delicioso néctar, cuja excelência vem já de tempos antigos.
- Pois eu costumo seguir esses bons exemplos, Tio Ambrósio! Mando para a adega a maior parte das uvas, reservando para consumo doméstico apenas o quinhão suficiente. Além disso sou, desde há muitos anos, como vossemecê me tem aconselhado, um defensor da qualidade dos nossos produtos. Pouco, mas bom!
- Infelizmente, e tendo em conta o que vamos vendo por aí, parece que nem todos são dessa opinião, Carlos!
- É como em tudo na vida, Tio Ambrósio! Há os que dão preferência à quantidade, sobretudo quando se trata de produtos para colocar em mercados menos exigentes, e há os que se esmeram por apresentar produtos de grande qualidade, embora com menor produção. Mas, como diz o meu cunhado Acácio, dois proveitos não cabem no mesmo saco.
- Este ano, porém, não vai haver razões de queixa, Carlos! No que toca a vindimas, todos os que tenho ouvido afinam pelo mesmo diapasão, afirmando que a produção é farta e a qualidade se apresenta alguns pontos acima da média.
- 0 ano foi-nos favorável, Tio Ambrósio! Quem disser o contrário está a mentir! É verdade que não tivemos muita fruta, mas a colheita da batata foi excelente e a vindima é aquilo que está à vista.
- É raro ouvir um agricultor apresentar uma opinião tão optimista, Carlos!
- Sobretudo depois que apareceram os mais variados subsídios, Tio Ambrósio! Antigamente louvávamos a Deus, agradecendo as colheitas, umas vezes mais fartas, outras com menos fartura. Agora não! Estamos todos à espreita do subsídio para isto ou para aquilo. 0 Liberato até costuma dizer que hoje não temos lavradores, mas agricultores subsidiodependentes.
- Não deixa de ser bem observado, Carlos! Todos nós conhecemos as dificuldades vividas por aqueles que continuam a depender do trabalho agrícola. Mas, por amor de Deus! Instalou-se entre nós uma dependência dos subsídios que, se estes faltarem, parece que deixaremos de comer pão ou de pôr nas batatas uma bica de azeite. Se a colheita é escassa, venha daí um subsídio para compensar a baixa produção. Se os celeiros e as adegas ficam a abarrotar, venha daí o dito subsídio para compensar a dificuldade no escoamento do produto. Subsídios para produzir e subsídios para deixar de produzir! Há coisas a que eu já não consigo habituar-me, Carlos!
- Mudam-se os tempos...
- Em muitos aspectos para melhor, Carlos! O facto de eu não me habituar a muitas destas coisas não quer dizer que discorde de todas elas.
- Eu sei, Tio Ambrósio! Tudo o que sirva para que os agricultores tenham uma vida com maior segurança e sem sobressaltos é sempre digno do nosso aplauso.
- Eu não diria melhor, Carlos!
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