À sombra do Castanheiro

 

– Vens aí com um sorriso de orelha a orelha. Carlos! Sinal de que tudo te corre bem na vida, não é, rapaz?

– Também é por isso. Tio Ambrósio! Graças a Deus, não tenho grandes razões de queixa, pois a saúde é sufi­ciente e a paz na família deixa-me correr os dias com uma certa tranquili­dade. Mas não é esse o motivo que me fez aflorar esta alegria no rosto. O Tio Ambrósio, que é um barra em charadas, não é capaz de adivinhar esta.

– É um desafio, Carlos?

– Uma provocação, Tio Ambrósio!

– Não vou nessa, Carlos! Hoje não estou nos meus dias para essas coisas da adi­vinhação. Prefiro passar o resto da tarde, tranquilamente, a namorar umas cerejas que estão ali, quase, quase em ponto para serem apanhadas. No próximo domingo, se vieres com disposição, podemos adoçar a boca com um punhado delas.

– Há trabalhos bem piores, Tio Am­brósio! Mas vossemecê tem a certeza que não quer tentar adivinhar a causa do meu sorriso? Não é maroteira nenhuma!

– Alguma anedota que te contaram pelo caminho...

– Frio! Muito frio, Tio Ambrósio!

– Então desembucha! Ou estás a fazer render o peixe?

– Então eu digo-lhe! Eu vinha a pensar naquele embrulho que um grupo de mulheres lhe mandou, no passado domingo. Vossemecê já abriu a prenda?

– Olha que cabeça a minha, Carlos! Esqueci-me de todo! Mas não digas isso à Joana, que ela e as outras senhoras podem pensar que foi uma falta de consideração da minha parte. E não foi! Cabeça de velho é que vai perdendo a memória. Mas um dia destes vou abrir o embrulho.

– Quer dizer que ainda não é desta que eu vou saber do que se trata...

– Provavelmente, não, Carlos! Mas que interesse pode ter uma coisa dessas?

– Sei lá, Tio Ambrósio! O certo é que o pessoal do Cabeço, ao ler essa passagem no jornal, ficou com aquela curiosidade natural que assiste todos os cidadãos normais. Não é pecado um homem ser curioso, pois não? Se é, garanto-lhe que, desta feita, até o nosso prior Feli­ciano se deixou enredar pela tentação do mafarrico. Ele e mais, Tio Ambrósio!

– Que disparate, Carlos! Estão a dar importância a uma coisa que a não tem.

– É a técnica das telenovelas. Tio Ambrósio! O que importa não é propriamente a mensagem, mas o apetite que se cria para obrigar a ver o próximo episódio. E digo-lhe mais! O Sanguessuga foi a Coimbra tratar dumas papeladas e encontrou lá um reverendo cónego que lhe perguntou por várias pessoas do Cabeço. Mas o que sua reverência queria mesmo saber era o conteúdo do embrulho que as mulheres do Cabeço lhe mandaram entregar.

– Não me digas que a curiosidade che­gou a essas alturas...

– E olhe que eu não estou a exagerar! A Faustina, aquela prima do Manuel das Chagas, que vive no Barreiro e é leitora assídua do “Amigo do Povo”, quando tele­fonou um dia destes lá para casa,
a primeira coisa que quis saber foi precisamente sobre o conteúdo do embrulho...

– Eu não acredito, Carlos! Dá-me a impressão de que isso traz água no bico, e o melhor é eu nem tentar saber do que se trata.

– Não faça isso, Tio Ambrósio! Eu já lhe garanti que as nossas mulheres
nutrem pelo Tio Ambrósio uma especial veneração, e por nada deste mundo se permitiriam ter um gesto menos respei­toso para com a sua pessoa.

– Nesse caso, vou pensar! O que for, depois to direi!

– Mais uma semana?

– O que é uma semana em comparação com a eternidade, Carlos? Tu já não estiveste mais tempo à espera de coisas bem mais importantes?

– Presumo que sim. Tio Ambrósio! Mas quando eu vejo que a curiosidade passou as fronteiras da nossa freguesia...

– Está bem, Carlos! Vou-te satisfazer essa curiosidade! Vai lá dentro, que o embrulho ainda está em cima da cómoda. Quero que sejas tu a abri-lo, rapaz!

– É já, Tio Ambrósio!