Ao calor da fogueira

– Entra, Carlos! Quase que nem dava pela tua chegada, rapaz! Estava aqui entretido, a pôr as leituras em dia, o que não é tarefa fácil. Hoje escreve--se tanta coisa, desde livros a revistas, passando pelos jornais, pelos panfletos, pelos comunicados... que uma pessoa a bem dizer só tem tempo para ler os títulos.

– E já não é pouco, Tio Ambrósio! O único jornal que leio de fio a pavio é o nosso "Amigo do Povo". Os outros, uns com vinte, outros com trinta e outros com cinquenta e mais páginas, só consigo ler-lhes as gordas da primeira página, até porque sei que o resto, lá por dentro, é só para encher papel...

– Não é bem assim, Carlos! Claro que fazes muito bem em dar prioridade ao "Amigo", porque se trata de um jornal pequeno no corpo, mas grande no seu conteúdo. Os jornais podem comparar-se às pessoas. Há deles com grande volume, mas fraca mensagem; e há outros de reduzida dimensão que valem quanto pesam.

– É caso para dizer que nem os jornais se medem aos palmos...

– De qualquer modo fazemos bem em não resumir o nosso conhecimento apenas ao que se escreve nesta ou naquela publicação, porque a riqueza cultural também está na diversidade.

– E hoje, que é que o Tio Ambrósio estava a ler?

– Estava aqui a folhear umas revistas que me trouxe o meu afilhado Jacinto, todas com longas reportagens
sobre a vida, os últimos dias e as homenagens fúnebres prestadas ao nosso saudoso Papa João Paulo II, que Deus tem na Sua glória. Além de fotos belíssimas, que nos fazem recordar os momentos mais marcantes da vida
deste Papa peregrino, deste intrépido defensor dos direitos da pessoa humana, todas as reportagens se rendem à mensagem de esperança que ele transmitiu à humanidade. Todos os textos referem a sua firmeza ao afirmar: "Não tenhais medo!"

– Eu nem tenho palavras para me referir a tudo o que vi e ouvi, Tio Ambrósio! Só lhe digo que, naquela sexta--feira em que o Papa foi a sepultar, decretei feriado lá em casa. Ainda cedo fui tratar dos vivos, mas depois, pelas nove horas, sentei-me em frente do televisor, acompanhado da Joana, e não tirei os olhos daquele lugar onde estava o meu coração. O meu coração naquela manhã estava em Roma, Tio Ambrósio! Senti-me irmanado àquela enorme multidão de pessoas que ali se reuniram, idas dos quatro cantos do mundo, para dizerem obrigado ao Papa defunto, e para agradecerem a Deus o dom da sua vida e da sua entrega ao serviço da humanidade.

– Lá no Cabeço, por certo, ninguém ficou indiferente a essas manifestações.

– Ninguém, tio Ambrósio! Pois se todos se dizem cristãos, como é que haviam de ficar indiferentes? Vossemecê não viu os judeus a agradecer a Deus o dom da vida do Papa João Paulo? E não viu os muçulmanos a tributarem-lhe a homenagem sentida da sua oração? E não viu os milhares e milhares de jovens a confessarem a sua gratidão pela força que o Santo Padre sempre lhes transmitiu? E não viu os grandes senhores do mundo, os presidentes, os reis, os ministros a acorrerem, às centenas, à praça de S. Pedro? E não ouviu o que eles disseram?

– Tudo, Carlos! Também eu fiquei
colado ao televisor, mas sozinho, em atitude de oração, porque foi assim que me apeteceu viver aquele momento. E agora, que já passaram alguns dias, vou folheando estas revistas, porque há coisas que convém um homem reler. Há até certos documentos que é bom a gente arquivar não apenas na nossa memória, mas mesmo entre os nossos objectos de estimação.

– A minha Joana estava era admirada com a solenidade daquela liturgia. Nunca se viu coisa assim em toda a história da humanidade.

– Não sabemos, Carlos! É bem possível que não! Mas não nos podemos esquecer que as televisões e os outros meios de comunicação são poderosos amplificadores dos acontecimentos. Às vezes de coisa pouca fazem uma solenidade.

– Não foi o caso, Tio Ambrósio!

– Pois não, Carlos! Eu até estranhei a forma como foi feita a cobertura deste acontecimento, pois não é habitual os meios de comunicação darem tanto relevo às coisas da Igreja, a não ser se houver alguma crítica a fazer ou algum escândalo à mistura. Desta feita, porém, até podemos dizer que foram um pouco exagerados.

– O Liberato é de opinião que funcionou aqui, uma vez mais, a guerra das audiências.

– Não digo que não, Carlos! Neste mundo marcado pelo liberalismo económico ninguém dá nada a ninguém. Muito pelo contrário! De qualquer modo, e até mesmo por isso, o trabalho dos meios de comunicação foi, antes de tudo, o sinal da grandeza humana e espiritual deste Papa. Um gigante do nosso tempo, Carlos!

– Sem dúvida, Tio Ambrósio! Com a sua coerência de pensamento, com a sua profundidade espiritual e pelo amor que dedicou às grandes causas da humanidade, eu estou convencido que foi o Papa que se impôs ao mundo e, logicamente, aos meios de comunicação. Não fora assim, e o acontecimento da sua morte não teria relegado para segundo plano todas as outras coisas que se passaram pelo mundo.

– Aí tens, Carlos! Ainda bem que se reconheceu, e continua a reconhecer, todo o empenho que o Papa colocou na sua missão de levar Cristo ao mundo e de trazer o mundo a Cristo. De resto, eu estou convencido que o futuro há-de ainda ampliar mais o
enorme contributo que o Papa João Paulo deu para a transformação do mundo e para a afirmação dos direitos do homem.