À sombra do castanheiro
- Durante esta semana, no Cabeço, o tema comum de conversa, em casa, nas ruas, nos estabelecimentos e até nos campos foi o daquele bárbaro atentado terrorista que destruiu parte de Nova Iorque, matando um número ainda não averiguado de pessoas, mas que deve ultrapassar as vinte mil. A gente nem tem palavras para classificar um acto destes, Tio Ambrósio! O choque é de tal ordem que nos deixa quase sem reacção, a olhar pasmados para aquele espectáculo dantesco, desconfiando dos nossos próprios sentidos, pois nos parece impossível que a realidade seja tão brutal como o quadro que se depara perante os nossos olhos incrédulos. E vossemecê que diz a tudo isto, Tio Ambrósio?- Que hei-de dizer, Carlos? Eu fiquei como tu, de boca aberta, pois o que aconteceu ultrapassa tudo o que seja imaginável. Eu não sou um apreciador dos filmes de violência e habitualmente, quando eles aparecem na televisão, ou procuro outro programa ou desligo o aparelho. De qualquer modo, já tenho visto algumas cenas de filmes desses, e digo-te que nenhuma delas me causou tanto horror como as imagens que nos chegaram dos Estados Unidos. Aquilo foi a expressão mais acabada do ódio e da vingança a que se assistiu no mundo depois da segunda guerra mundial. Só Hitler, com a sua paranóia tresloucada, ultrapassa, em meu entender, a malevolência inqualificável de quem engendrou agora uma monstruosidade destas.
- A mim ainda me parece impossível que corações humanos, criados por Deus à sua imagem e semelhança, possam ter chegado a uma tal cegueira de ódio e de brutalidade. Este coração humano é capaz do melhor e do pior, Tio Ambrósio!
- Não tenhas dúvida, Carlos! Do mesmo coração tanto podem brotar actos de heroísmo, de santidade, de amor desmedido, como os mais abjectos sentimentos de ódio, de traição ou de violência destruidora.
- E o que mais me perturba é que muitos desses actos de violência, que tiram a vida brutalmente a milhares de seres humanos, são praticados em nome de Deus. Mesmo no caso que agora abalou a América e o Mundo não estão postas de lado razões ligadas a um certo fundamentalismo religioso.
- Infelizmente é assim, Carlos! Muitos dos conflitos que se têm gerado, ao longo da história da humanidade, nascem de desentendimentos que apresentam motivações declaradamente religiosas. Se fores a ver bem qual é a raiz das lutas que se travam no Médio Oriente, nos Bálcãs ou na Irlanda, encontrarás sempre velhos atritos devidos a formas diferentes de manifestar a mesma fé em Deus Criador e Senhor de todas coisas.
- E que podemos nós fazer para inverter esta espiral de violência e de ódio?
- Antes de mais devemos vigiar sobre o nosso próprio coração, Carlos! Nunca devemos dar abrigo a qualquer espécie de ódio ou de vingança,
- Mas os autores de crime tão horrendo têm de pagar pelo que fizeram, Tio Ambrósio! Se vossemecê for fazer um inquérito de rua, perguntando às pessoas qual deve ser a atitude a assumir perante os criminosos, obterá como resposta quase unânime a aplicação da lei antiga do olho por olho e dente por dente.
- Todas as sociedades têm as suas leis para punirem os culpados de crimes de violência, Carlos. Para tanto é preciso, antes de mais, identificar os verdadeiros criminosos, para que se não corra o risco de castigar ao mesmo tempo justos e pecadores. Eu tenho verdadeiro e fundamentado receio que, neste caso dos actos terroristas levados a cabo na América, se acabe não por fazer justiça mas antes por se dar continuidade a uma escalada de violência cada vez maior. É isso o que sempre acontece quando o coração humano se deixa invadir pelo ódio, Carlos!
- E com tudo isto não corremos o risco de um novo conflito mundial, Tio Ambrósio? Estou a ver o caso mal parado...
- Se os dirigentes dos povos puserem o coração acima da razão, essa eventualidade pode muito bem acontecer. Mas nós vamos esperar que esses governantes tenham a lucidez suficiente para evitarem um conflito que, levado ao extremo, poria em risco a sobrevivência da própria humanidade.
- Seja como for, o que agora nos domina é o medo, Tio Ambrósio!
- Mas até pode acontecer que o medo, em certas circunstâncias, seja bom conselheiro, Carlos!
- E resta-nos esperar...
- É verdade que não está nas tuas mãos e nas minhas evitar uma guerra, Carlos! Mas está ao nosso alcance evitar que o ódio e o rancor se instalem no nosso próprio coração.
- Se está ao nosso alcance, vamos empenhar-nos nisso.
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