Ao calor da fogueira

– Entra, Carlos! Como vês, estou aqui embrenhado nas minhas leituras. O frio não me tem permitido dar umas voltas por aí, como é meu costume. Vou-me entretendo aqui, sentado à lareira, a renovar os meus conhecimentos, E, para isso, ainda não há como ler um bom livro.

– Também se aprende vendo bons programas televisivos, Tio Ambrósio...

– Não é a mesma coisa, Carlos! A mim, o que eles dizem entra-me por um ouvido e sai-me pelo outro. Ao passo que o que escrevem, tenho-o aqui à mão. Se tenho dúvidas posso voltar atrás e ler três ou quatro vezes. É diferente, para melhor!

– Depende dos dias e da disposição, Tio Ambrósio! Com este frio, a mim nem me apetece ler, nem escrever. Mal por mal, dar um bocado à língua, ou bater uma suecada com os amigos.

– Então senta-te e desenferruja a língua, já que vens de peito feito para isso. Como vão as coisas aí pelo Cabeço. Que dizem as pessoas, por exemplo do novo Governo?

– Há de tudo, Tio Ambrósio! E ainda bem que é assim, pois eu sempre detestei unanimidades. O Quintino, por exemplo, anda feliz da vida, dizendo que vamos ter o melhor executivo desde que foi implantado em Portugal o regime democrático.

– Não será optimismo a mais?

– Eu acho que sim! Uma coisa é, numa ocasião destas, todos estarmos à espera que as coisas corram bem e desejarmos isso do fundo do coração, e outra, bem diferente, é embarcarmos em rotulagens de partidarismo primário. De resto, está bem à vista de todos que o nosso primeiro não conseguiu, para jogarem na sua equipa, muitos dos nomes mais capazes para exercerem, neste momento, a difícil tarefa de governar.

– Também alinho nessa opinião, Carlos! Os melhores estão bem colocados, em lugares públicos ou empresas privadas; auferem de chorudos ordenados; têm a sua vida familiar organizada longe dos holofotos e das câmaras de televisão; e não querem a sua vida devassada, nem ter que declarar publicamente quanto ganham, quanto investem, quanto pagam ao fisco...

– O Sanguessuga acha um disparate de todo o tamanho essa opinião do Quintino. Diz ele que este governo não é o melhor, a começar pelo senhor primeiro-ministro, que pode ter boa vontade, mas carece de conhecimentos em áreas fundamentais da governação. O Manuel das Chagas, que declaradamente não é um socrático, foi mesmo ao ponto de afirmar que pode haver elementos muito qualificados na equipa, mas o treinador não conhece bem as tácticas do jogo. Não sei mesmo se vinha a propósito, mas ouvi-o citar Camões, dizendo que "um rei fraco faz fraca a forte gente".

– Vamos dar tempo ao tempo, Carlos! Por vezes acontece a gente enganar-se na avaliação que faz das pessoas. O meu amigo Duarte, que Deus lhe fale na alma, costumava dizer que de uma fraca moiteira pode sair uma rica peça de caça.

– Não tem, pois, qualquer razão o Sanguessuga, pois não, Tio Ambrósio?

– Até pode ter alguma, Carlos. Mas, nestas coisas da política, eu aconselho sempre muita moderação e alguma prudência.

– Vá dizer essa à minha cunhada Ermelinda e verá a resposta que leva...

– Está escamada, a mulher do Acácio?

– Furiosa, Tio Ambrósio!

– Não vejo razão para essas fúrias...

– Mas ela vê, Tio Ambrósio! E digamos que, de certo modo, temos que dar o braço a torcer, porque os números falam por si e nisto da democracia o que conta são as cabeças que votam neste ou as que votam naquele. Conta o número e não a qualidade, entende?

– Entendo, Carlos! O que eu não entendo é o que isso possa ter que ver com as fúrias da Ermelinda.

– Então vossemecê não reparou que, dos dezasseis ministros escolhidos, catorze são cavalheiros que supostamente fazem (ou desfazem) a barba todas as manhãs? "Onde está a representatividade do eleitorado feminino?" – questiona a minha cunhada. E acrescenta: "Se somos mais de cinquenta por cento dos eleitores, deveríamos constituir pelo menos metade do governo da nação". E vai mais longe a Ermelinda afirmando que "este país não tomará rumo direito enquanto as mulheres não tomarem conta do leme da embarcação". Para ela, "os homens já demonstraram sobejamente a sua incapacidade para conduzirem os destinos da nação".

– E vocês que lhe repondem, Carlos?

– Eu, nada! Além de outros motivos, até porque sou levado a reconhecer que ela tem uma pitada de razão.

–Uma pitada, Carlos?

– Uma bocadito mais, Tio Ambrósio! Mas é melhor a gente não dar muitos trunfos ao adversário.

– Não entendo, Carlos! Ou, para ti, o adversário são as mulheres, quando todos sabemos que elas têm tantas ou mais capacidades de governo que os homens?

– Isto é um modo de falar...

– Mas vai sendo tempo de mudarmos alguma coisa, Carlos! Tu já reparaste que, na maioria das famílias, quem toma conta do governo da casa são as mulheres?

– Na minha é assim, Tio Ambrósio! A Joana é que põe e dispõe de todas as coisas. E não tenho a mínima razão de queixa.

– Então, se elas são tão eficientes no governo das suas casas, quem nos diz que não teriam igual êxito a governar o país?

– O Tio Ambrósio sempre me faz cada pergunta...