Ao calor da fogueira

– Então, Carlos? Como vão correndo as coisas aí pelo Cabeço? As notícias que me vão chegando são bastante animadoras. Esteve aqui o Sanguessuga, há uns dois ou três dias, e disse-me que se vê no rosto das pessoas que se instalou entre nós uma esperança generalizada.

– O povo é assim, Tio Ambrósio! Tem esperança até Bragança!

– Esse provérbio é que eu nunca tinha ouvido, e já cá
ando há muitos janeiros, Carlos!

– Nem eu, Tio Ambrósio! Mas veio-me assim de repente à cabeça, para significar que o povo, mesmo que o maltratem e humilhem, continua aberto à perspectiva de melhores dias que hão-de vir, não se sabe bem quando. Mas, lá no fundo, todos desejam que seja desta que isto vai!

– E vai mesmo, Carlos! Se todos quisermos, se todos nos unirmos, se todos dermos o melhor das nossas forças, do nosso trabalho e da nossa inteligência, tenho a certeza que atingiremos os nossos objectivos.

– Pois é, Tio Ambrósio! Aí é que a porca torce o rabo! Todos nós sabemos e apregoamos todos os dias que é a união que faz a força.

– E não é?

– Claro que é, Tio Ambrósio! Mas onde é que está essa dita união? Como é que ela se conquista, se constrói ou se alcança? Que é preciso cada um de nós fazer para que a união seja uma realidade concreta e não apenas uma ideia bonita?

– Perguntas acertadas, Carlos! Mas, para te ser sincero, tenho muitas dificuldades em te dar uma resposta. E não sei mesmo se alguém, por mais inteligente que seja, conseguirá responder de peito feito a perguntas tão pertinentes, mas também tão difíceis.

– Aí é que bate o ponto, Tio Ambrósio! A união apregoa-se, mas não se vive! Se estivermos atentos ao que se passa à nossa volta não nos será difícil concluir que o que está a dar é o individualismo, o cada um puxar a brasa à sua sardinha. E isto a começar lá por cima, pelos que encabeçam a lista das autoridades políticas, académicas, autárquicas, governamentais, e por aí adiante. Primeiro eu! Primeiro os meus interesses! Primeiro a minha opinião!

– És capaz de ter alguma razão, Carlos! No entanto, também nos não faltam aí muitos e bons exemplos de verdadeiro sentido de união e de entreajuda. repara no que se passa convosco, aqui no Cabeço. Quando um de vós precisa de botar um telhado novo a uma casa, aparecem logo os amigos e compadres a ajudar, para que tudo se faça num só dia. Queres exemplo mais vivo de união e de espírito de ajuda?

– O Tio Ambrósio, desta feita, também está a puxar a brasa para a sua sardinha.

– Olha que não, Carlos! A minha intenção é simplesmente a de não deixar passar em claro os bons exemplos, de modo que se não fique com a impressão de que aqui, na nossa terra, impera a chamada lei da selva. Aqui, nós somos pessoas de bem, com formação e espírito de fraternidade e de solidariedade, como diria o frei Melícias.

– Ora aí tens um outro bom exemplo de alguém que, na sua vida, tem buscado sempre exortar as pessoas à união, ao espírito comunitário e gregário...

– Concordo consigo, Tio Ambrósio! Quando, aqui há tempos, ouvi falar esse nosso irmão, numa cerimónia da entrega de medalhas de mérito e bons serviços dos nossos bombeiros voluntários da vila, até eu fiquei orgulhoso por ser sócio da corporação. Aquelas condecorações, ao peito de rapazes e raparigas do meu tempo, que se dedicaram, sem limites de tempo, ao serviço da comunidade humana, senti que eram colocadas de algum modo também na minha lapela, até porque perfilham os mesmos princípios e estão abertos, como eu, à partilha e ao serviço dos que mais precisam.

– Estás a ver Carlos? Exemplos de espírito de união e de verdadeira fraternidade não nos faltam, sobretudo entre o povo. Se calhar, o que nos falta é que o peixe graúdo, o que nada lá por cima à tona d’água, seja arrastado pelo exemplo da arraia miúda...

– Se eu bem entendo, Tio Ambrósio, vossemecê defende que o bom exemplo vem de baixo...

– Era mais vistoso (hoje diriam os jornais que era mais mediático) se os bons exemplos viessem de cima. Nesse caso podiam contagiar, com maior facilidade, a juventude e todos os que estão de espírito aberto à comunhão fraterna. Porém, e dado que esse altos exemplos raramente comparecem a terreiro, sigam-se os do povo simples, que sabe dar uma mão a quem precisa, que acode prontamente a uma necessidade urgente, que é capaz de esconder a mão direita, para que a esquerda se não aperceba do gesto fraterno que praticou...

– Ou vice-versa, Tio Ambrósio!

– Isto é um modo de falar, Carlos! Tanto a esquerda (estou a falar da mão!) pode dar bom exemplo à direita, como esta iluminar aquela.

– Diz isso para quem, Tio Ambrósio?

O nosso povo costuma rematar que... para bom entendedor!...