Ao calor da fogueira

– Isto é que foi madrugar, Tio Ambrósio! Não contava encontrá-lo aqui a uma hora destas. Até tinha pensado em ir fazer-lhe uma visita, logo mais à tarde, para trocarmos algumas impressões sobre o momento político que estamos a atravessar.

– Uma coisa não impede a outra, Carlos! Lá pelo facto de nos encontrarmos aqui, logo pela manhã, à porta da assembleia de voto da nossa freguesia, não quer dizer que eu dispense o nosso encontro dos domingos à tarde. Podes ir a qualquer hora, que eu, depois da bucha, não saio de casa. Olha, até podes levar contigo o Sanguessuga mai-lo teu cunhado Acácio, porque esses marotos parece que já se esqueceram que eu existo. Ao Sanguessuga não lhe boto a vista em cima desde o Natal.

– Têm a vida deles, Tio Ambrósio! Mas isso não impede que, pelo menos uma vez por mês, se desloquem a sua casa para uma visita de cortesia. Hoje, porém, desconfio que o Sanguessuga arrede pé do seu espaço comercial. Isto é dia de eleições, e o pessoal sempre se junta para desenferrujar a lingua e para conviver um pouco. Daí que o Sanguessuga não tenha mãos a medir. Há até quem diga que ele é o único cidadão do Cabeço que ganha alguma coisa com as eleições...

– Eu sempre ouvi dizer que no aproveitar é que vai o ganho. E nem há mal nenhum em o Sanguessuga ter a porta aberta num dia destes para servir a clientela. Afinal de contas ele paga impostos, e que não devem ser tão pequenos como isso...

– Todos nós pagamos, Tio Ambrósio! Se assim não fosse, como é que havia de funcionar a máquina do Estado? De onde vem o dinheiro para pagar o ordenado do senhor Presidente da República? Dos impostos pagos pelos cidadãos! Onde vão os governantes buscar as verbas da coluna da esquerda do Orçamento de Estado? Aos impostos pagos pelos cidadãos!

– Quer isso dizer que a máquina administrativa não cria nenhuma riqueza, nenhum valor acrescentado (como agora se diz), mas apenas consome o que se tira do bolso dos ontribuintes?

– Mais ou menos, Tio Ambrósio! Eles não se cansam de inventar formas para todos os dias mugirem a vaca popular, que trabalha de sol a sol, que se esfalfa e que, apesar disso, todas as tardes se dirige pacientemente para a ordenha dos impostos, ruminando um resto do feno da merenda.

– Não sabia que estavas tão informado a esse propósito, Carlos!

– Basta termos dois olhos na cara para nos darmos conta desta realidade, Tio Ambrósio! Ele há impostos directos, impostos indirectos e impostos forçados.

– Nesses últimos é que eu nunca ouvi falar.

– Os forçados? São os que nos tiram à força, bastando para isso inventarem qualquer lei que torne legal o desembolso. Olhe! Por exemplo, as coimas! Ainda um dia destes o Quintino levou pela medida grossa, só pelo facto de andar a queimar umas silvas no meio do olival. Passaram os fiscais da autarquia e pediram-lhe a licença?

– Qual licença, Carlos?

– Agora, mesmo no Inverno, para se queimarem umas silvas, ou um resto de ramadas, ou umas vides, é preciso um homem ir à vila tirar e pagar uma licença.

– A que propósito?

– Ninguém sabe, Tio Ambrósio! Ainda se eles viessem garantir que o trabalho iria ser bem feito, mas não! O que importa é que os euros caiam nos cofres da tesouraria.

– São necessidades, Carlos! E mesmo assim, há quem diga que os serviços públicos são os maiores caloteiros do país. Pelo menos, é o que se ouve aí a cada passo. Os médicos fazem greve, porque o Estado lhes deve horas extraordinárias; os empreiteiros queixam-se do atraso no pagamento das obras que lhes encomendaram; até as instituições culturais se queixam de não receberem os subsídios prometidos para o funcionamento das suas actividades.

– Isso não é nada, Tio Ambrósio!

– A mim já me parece bastante!

– Mas há muito pior do que isso! E o que mais nos fere é que haja dois pesos e duas medidas. Quando são eles a receber, ai de nós se nos atrasarmos um dia que seja! São capazes de vir logo com ameaças de penhores...

– E se for só ameaça, já não é mau de todo!

– Pois é, Mas se forem eles a pagar, podem passar dias, semanas, meses e anos, que ninguém lhes pode tocar. Eu sei de uma autarquia qu estranhou o facto de um fornecedor de detergentes se negar a fazer a entrega de nova remessa só pelos simples facto de ainda lhe não terem sido pagas as facturas de há catorze meses. Mais de um ano, Tio Ambrósio.

– Não é nada democrático, Carlos!

– O Tio ambrósio já viu o que seria desse fornecedor se, catorze meses depois, ainda devesse o seu imposto autárquico?

– Não estaria em bons lençóis, Carlos? Isso é verdade! Mas eu não entendo porque é que tu me puxaste esta conversa em dia de eleições.

Nem eu, Tio Ambrósio! Calhou!