Ao calor da fogueira

– Entra, Carlos! Quase nem dava pela tua chegada, aqui entretido com a leitura das notícias de toda a parte. Segundo os especialistas, o passado mês de Janeiro foi o mais seco dos últimos cem anos.

– Começa a ser preocupante, Tio Ambrósio! Por este andar, vamos ter alguma dificuldade em fazer a sementeira da batata, pois corremos o risco de não haver água para a respectiva rega. Os nascentes não passam de pequenos fios de água...

– Pois eu tenho cá um presentimento de que ainda vamos ter chuva com fartura, Carlos! Quando a Senhora das Candeias rir, o inverno está para vir.

– Eu sempre ouvi dizer isso às pessoas mais velhas. Mas agora quem manda não são os velhos, são os metereologistas.

– Graças a Deus, também se enganam, Carlos! Eu não digo que estas coisas do tempo não tenham nada a ver com a ciência, porque têm. Mas, como costuma dizer o nosso povo: Quem sabe está bem calado.

– E que mais notícias leu o Tio Ambrósio no jornal? Fala aí da campanha dos nossos políticos, que se atiram uns aos outros sem o mínimo respeito pelas respectivas famílias?

– Não, Carlos! Este é um jornal respeitador, que não se mete nesses mexericos que, além de tudo o mais, costumam cheirar mal que se fartam. De qualquer modo, tens muita razão em levantar de novo esse assunto, pois os golpes baixos que os candidatos dão aos seus adversários não são propriamente um bom exemplo para a juventude.
Todos defendem a pés juntos a dignidade da pessoa humana e o direito de cada um à sua privacidade, para, logo a seguir, se contradizerem, afirmando cobras e lagartos, verdades e mentiras, tudo à mistura.

– E o pior, Tio Ambrósio, é que têm público para os aplaudir nesses dislates. Por vezes, eles até se entusiasmam com as palmas, acabando por afirmar aquilo em que não acreditam. O que lhes interessa é a glória de um momento, é a sensação de terem conquistado o aplauso de uma plateia de gente que se esqueceu de pensar.

– Talvez seja por isso mesmo que, no final de cada campanha, haja um tempo para reflexão, para as ideias acalmarem e cada um ter oportunidade de, longe da vozearia dos comícios e das festas partidárias, ver quem é que realmente oferece melhores garantias para a governação do país. Porque isto é um assunto muito sério, que não pode ser levado a brincar, Carlos! Cada cidadão tem o dever de pôr a mão na consciência antes de se deslocar à assembleia de voto para expressar a sua vontade em relação ao nosso futuro colectivo.

– Isso é verdade, Tio Ambrósio! Mas acontece que a maioria dos eleitores não foram informados sobre as propostas de actuação de cada partido. Muitos vão mais pela cor das bandeiras do que pelas ideias e pelos objectivos.

– Não é o teu caso, Carlos!

– Não, Tio Ambrósio! Eu procuro estar atento ao que se vai passando à minha volta. Além disso tenho debatido estes assuntos quer com o Liberato, quer com o Sanguessuga, quer mesmo com meu cunhado Acácio. Desta feita, até tive paciência para ouvir as análises feministas da minha cunhada Ermelinda. Para ela, esta coisa da política só mudará verdadeiramente quando as mulheres conquistarem o poder. Os homens, diz ela, já deram suficientes provas de incapacidade, de incompetência e de desrespeito pelas regras democráticas. Para a Ermelinda, já era tempo de as mulheres acordarem e de se transformarem numa força capaz de mudar os destinos do país.

– Só lhes falta decisão, Carlos! Segundo as estatísticas, as mulheres são em maior número que os homens. E, em democracia, é o número de votos que conta, não é a qualidade dos votos.

– É melhor não se meterem nisso, Tio Ambrósio!

– Não vejo nenhuma razão válida para o não fazerem, Carlos!

– Está bem, Tio Ambrósio! Mas eu, por exemplo, não gostaria nada de ver a minha Joana a concorrer para deputada ou mesmo para vogal da nossa Junta de Freguesia.

– Estás a deixar-te ultrapassar pela direita, Carlos! Daqui a uma dúzia de anos, quer tu queiras quer não, as câmaras, as juntas, os governos e tudo o mais que tu queiras mencionar... tudo vai estar nas mãos das mulheres. E eu digo que ainda bem!

– Aí não concordo muito consigo.

– Mas devias concordar, Carlos! Tu sabes que as mulheres têm muito melhor aproveitamento escolar que os homens? Que elas têm melhores notas que eles? Que terminam em maior número os seus cursos universitários?

– E daí?

– Daí se conclui que as classes dirigentes do futuro são as que agora se preparam nas escolas e nas universidades. Ora, se elas são em maior número, se têm melhor aproveitamento, se concluem com maior facilidade os estudos...

– Pois que seja, Tio Ambrósio! Isto precisa de uma renovação! E se tem de passar por aí...

– Não estás muito convencido, Carlos!

– É mais uma questão de vontade, Tio Ambrósio! Mas aceito o princípio de que contra factos não há argumentos.