Ao calor da fogueira

 

– Estou em crer que o Tio Ambrósio ainda vai ter sorte!

– Sempre me considerei um homem de sorte, Carlos! Quem tem amigos como eu tenho, quem é estimado como eu sou e quem usufrui da liberdade como eu usufruo... é sempre um homem afortunado. E calculo que o mesmo se passa contigo, Carlos! Não é verdade?

– Eu não me estava a referir propriamente a essas circunstâncias de amizade, estima e liberdade que vossemecê enunciou. Referia-me a um futuro possível hipotético aumento da sua pensão de reforma.

– Já andam nisso, Carlos? É porque temos eleições à porta! Andam anos a fio a discutir isto e mais aquilo, sem acharem nenhuma solução, e depois, quando chega a altura de nos pedirem o voto é certo e sabido. Uns vão aumentar as reformas dos velhotes, outros arranjar trabalho para
todos, outros fazer chegar médicos a todos os centros de saúde, outros ainda vão permitir que as mães fiquem em casa para cuidarem dos filhos, pagando-lhes compensadores ordenados. O costume! Não é, Carlos?

– Como é que pode haver política sem promessas, Tio Ambrósio? Seria como comida sem sal...

– Pois será, Carlos! Mas cá para mim escusam de vir com
essas patranhas, que eu não lhes prestarei qualquer atenção. Antes de eles nascerem já eu comia brôa há dezenas de anos!

– A gente sabe que todos exageram, Tio Ambrósio! Mas a verdade é que não podemos deixar cair o poder na rua. Temos que votar em alguém!

– Justo, Carlos! Votar continua a ser a melhor forma de expressarmos a nossa opinião, até porque onde há dois há possibilidade de escolha. Podem ser os dois maus, mas um sempre será pior que o outro. Entendes?

– Entender, entendo! Mas, seguindo a sua teoria, não podemos acreditar em ninguém.

– Nestas coisas da política, um homem deve andar sempre com um pé atrás, Carlos! De facto, se fôssemos a acreditar em todas as promessas que nos fazem, tu bem sabes que já não havia em Portugal um único cidadão nas listas de espera, que não teríamos um único jovem licenciado no desemprego, que todas as famílias com filhos deficientes seriam apoiadas, e por aí adiante!

– Então como vamos escolher, Tio Ambrósio? Não há nenhum partido, não há nenhum candidato que não arrote promessas ao pequeno almoço, promessas, ao almoço, promessas ao jantar.

– Eu sei, Carlos! Mas nós somos sensatos. Pode haver quem julgue que o povo continua a não ver um palmo à frente dos olhos, mas engana-se redondamente. O povo sabe o que quer e tem memória!

– Nessa última parte é que eu já não acredito, ou pelo menos boto-lhe as minhas reticências. Pelo que eu tenho visto, muitos de nós temos a memória curta, não nos lembrando hoje do pão amargo que nos fizeram comer há pucos dias. Desculpe-me o Tio Ambrósio eu discordar da sua opinião.

– Vivemos numa democracia, Carlos! Eu ainda há pedaço te referi que sou um homem que se orgulha de ser livre. E não há liberdade verdadeira sem pluralidade de opiniões. Entendes?

– Faço um esforço, Tio Ambrósio! Mas continuo na minha de desconfiar do estado da memória de muitos dos nossos concidadãos. Pois se há vinte anos lhes fizeram promessas que não cumpriram; se há quinze lhes repetiram promessas que foram pelo mesmo caminho; se há dez os presentearam com promessas que nunca passaram de projectos; se há cinco lhe garantiram a pés juntos que tudo iria mudar e nada mudou...

– Estás a concordar comigo, Carlos! Só que, em democracia, é mesmo assim! No fundo, concordamos uns com os outros, mas arranjamos sempre um pormenor para provocar a discussão, ou uma vírgula para fazer nascer o debate.

– Se eu bem o entendo, o Tio Ambrósio está a querer dizer-me que todos criticamos os políticos, que todos detestamos as suas promessas, que todos nos irritamos com a sua falta de palavra, mas acabamos, ao fim e ao cabo, por lhes entregar de mão beijada o nosso voto para eles governarem o país como quiserem.

– É mais ou menos isso, Carlos! Tu, desde que começaste a debater certos assuntos com o Liberato, estás um comentador político de mão cheia! Acautela-te, que ainda te vêm chamar para substituir o doutor Marcelo...

– Isso foi chão que deu uvas, Tio Ambrósio! Eu não sei se vossemecê já reparou que nós somos um país de modas. Essas dos comentadores políticos, penso que já deu o que tinha a dar. Tratava-se de um espectáculo e nada mais!

– Por vezes diziam umas coisas bem acertadas, Carlos!

– Outras vezes, enganavam-se a torto e a direito! E isto para não referir os factos políticos que criavam. Como diz o Liberato, muitos deles não eram comentadores de nada, mas levantavam as
lebres que lhes apetecia para depois se divertirem a fazer-lhes pontaria.

– Tudo é possível, Carlos!

– Até é possível, como vê, que os políticos continuem a fazer-nos promessas sem nenhuma intenção de as cumprirem...

– E também é possível, apesar de saberem de tudo isso, que os eleitores vão depositar o seu voto como se tudo o que ouviram fosse verdade...

– O que não é possível em democracia, Tio Ambrósio?