À sombra do castanheiro

- Eu sei que o Tio Ambrósio não subscreve o aforismo popular que diz: fica-te mundo cada vez para pior.

- Embora não concorde com tudo o que se passa à minha volta, costumo olhar o mundo e os acontecimentos com um certo optimismo, Carlos. A verdade é que o mundo, felizmente, vai dando passos positivos, de tal modo que o nosso presente, no meu entender, é melhor que qualquer época do passado. Mas tu que puxaste este assunto para terna de conversa terás alguma razão para tanto.

- É destas coisas, Tio Ambrósio! No fundamental eu estou de acordo consigo, porque também eu entendo que a humanidade, seguindo o mandato do Criador, tem feito alguns progressos em muitos campos da sua actividade. Ainda agora aquela conferência internacional, na África do Sul, com representantes de uma boa parte dos países que coabitam no planeta a assinarem um documento tendente à erradicação da escravatura, pode ser considerada como um avanço significativo. Mas, em muitos outros aspectos, dá-nos a impressão que estamos a andar para trás como o caranguejo.

- Esses documentos têm um valor bastante relativo, Carlos! Alguns países, nomeadamente os mais poderosos, acabam por dar o dito por não dito, e tudo fica como dantes. Basta ver o que se passa com todos os documentos sobre a emissão de gases para a atmosfera. Toda a gente fala do buraco do ozono, e sabe-se que, se continuarmos a poluir o ar do planeta, a humanidade corre graves riscos de saúde ou até mesmo de sobrevivência, Dado o alarme, juntam-se os grandes deste mundo para solucionarem o problema e decidem que cada país deve reduzir em tantos por cento a emissão de gases produzidos pelas suas indústrias poluentes. Todos assinam o documento e, no final, colocam o melhor dos sorrisos para a fotografia de conjunto. Mas é sol de pouca dura. Passado algum tempo verifica-se que quase todos os países mais industrializados em vez de terem reduzido a emissão de gases, pelo contrário aumentaram o fluxo poluente.

- Está a ver, Tio Ambrósio? Os interesses dos países ricos estão acima de todos os protocolos internacionais. Como diz o nosso amigo Sanguessuga, o que faz girar o mundo não é a moral nem as boas acções mas sim o vil metal e o lucro. Não foram já assinados dezenas de documentos proibindo a venda de armas aos países do chamado terceiro mundo? 0 certo é que as guerras continuam a ser alimentadas precisamente pelos países que assinaram esses documentos, com a agravante de as armas que fornecem serem pagas com os recursos que eram necessários para dar alimento a multidões famintas de mulheres e crianças.

- Nesse ponto tens toda a razão, Carlos! Se não houvesse venda de armas, as guerras pura e simplesmente não existiriam, e esses povos poderiam iniciar uma caminhada de desenvolvimento e de progresso.

- E os lucros dos países ricos, Tio Ambrósio? Para onde iriam eles? Vossemecê não vê que o nível de vida de algumas nações depende, em grande parte, das riquezas vindas dos países pobres, através da venda de armas?

- Parece que é um negócio chorudo, Carlos!

- Imoral, mas altamente chorudo, Tio Ambrósio! Com a agravante de ser um negócio quase clandestino. Se formos a ver, nenhum país fabricante tem a coragem de declarar abertamente que vende armamento a este ou àquele grupo beligerante. E, em muitos casos, até é verdade. As armas entram nos circuitos mafiosos de certas redes internacionais, habitualmente ligadas também ao tráfico de drogas. Parece até que Portugal é um dos locais de passagem deste negócio, havendo necessariamente alguns portugueses envolvidos nestas transaçôes.

- Mas tu não conheces nenhum, Carlos!

- Penso que não, Tio Ambrósio! Mas isto quem vê caras, não vê corações! E vossemecê não se admire que alguns palacetes construídos por novos ricos tenham a sua fonte de financiamento precisamente nesse negócio obscuro e pouco dignificante.

- É melhor nem pensarmos nessas coisas, Carlos! Eu gosto de olhar para as pessoas sem ideias preconcebidas, vendo em cada homem um verdadeiro irmão.

- Eu também, Tio Ambrósio! Mas ninguém nos garante que, ao caminharmos pelas ruas, não nos cruzemos com cidadãos que não são exactamente aquilo que parecem.

- Quem te ouvir dizer essas coisas até há-de pensar que tu sabes mais do que aquilo que dizes, Carlos!

- Ele não, Tio Ambrósio! Mas gostava de saber!


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