Ao calor da fogueira
Estou à espera do primeiro visitante do menino Jesus! Quem foi o felizardo, Carlos!
Não quer adivinhar, Tio Ambrósio?
Adivinhar, não, porque não tenho capacidade para tanto. Se eu pudesse adivinhar, outro galo cantaria! Mas o que posso é fazer um palpite! Sei lá! Como o teu sonho se passa em Portugal, e mais concretamente em Belém, eu apostaria no presidente Sampaio.
Pois não, Tio Ambrósio! Também eu, especado ali ao lado do burro, sem tossir nem pestanejar para ninguém dar por mim... também eu esperava ver à frente do cortejo, vestido de rei mago ou de pastor de gado, o nosso Presidente. Para alguma coisa teria servido o recente encontro, no Vaticano, com o Vigário do Menino. Sei lá! Era possível trazer, por exemplo uma carta de apresentação, ou coisa assim. Mas não! Eu arregalei bem os olhos, para fixar o rosto do visitante, que se apresentava encapotado num gabão, daqueles que usam os guardadores de vacas em Trás-os-Montes. Era ele! Aquela bigorna de tubérculo, por entre dois olhos muito vivos, não enganava ninguém.
E era quem, Carlos?
O Zé Manel!
O Zé Manel?
Sim, Tio Ambrósio! Esse mesmo, o ambicioso! O que provocou a crise que agora em Portugal se vive, porque não resistiu à tentação da vaidade e da ambição, trocando a liderança de um pequeno governo de um pequeno país pelas tribunas da Europa toda.
O Barroso?
Agora simplesmente Zé Manel, não apenas para os amigos, mas para todos os que, à segunda volta, deram o seu aval para que ocupasse a ambicionada cadeira de Bruxelas.
Tu não estás a ser um pouco duro e mordaz nas tuas críticas, Carlos? Olha que é uma honra para um país pequeno como o nosso ter à frente dos destinos da Europa um filho seu, um dos da nossa estirpe lusitana.
Deixe-se de coisas! Vossemecê vai ver, agora que vamos entrar em campanha eleitoral, como vai ser classificada a sua atitude, uma verdadeira fuga para a frente, deixando atrás dez milhões de concidadãos que, na sua maioria, acreditaram na sua palavra.
Um homem faltar à palavra dada é uma acção muito feia, Carlos!
Vergonhosa, Tio Ambrósio! Eu antes queria partir uma perna do que faltar à minha palavra, mesmo dada sem qualquer juramento.
Mas, por certo, não foi esse o tema do diálogo entre o europeu Zé Manel e o Divino Infante, nessa noite fria do teu sonho...
Noite fria, lá fora! No presépio, a presença da vaca e do burro, asseguravam um ambiente agradável, de tal modo que o Menino até tinha os bracinhos soltos, fora do agasalho que Sua Mãe persistia em puxar para cima.
E como foi o encontro?
O Divino Infante, a princípio, não parecia muito disposto a entabular conversa com o homem do gabão, pois se ia entretendo, com a mãozita direita, a puxar uma madeixa dos cabelos negros e brilhantes da Senhora Sua Mãe. No meio do deleite (e era um deleite espiritual, Tio Ambrósio, ver assim o Menino entretido com a Senhora!) o visitante bem pigarreou, tossiu e fez alguns trejeitos e esgares. Nada! Até que se resolveu a colocar o polegar e o indicador direitos no pé do Infante, abaná-lo um pouco, e dizer: "Sou eu! O Zé Manel!".
E o Menino?
Olhou para ele, descontente por não poder continuar o jogo da empatia com a Mãe, e respondeu: "Eu sei muito bem quem tu és! Mas não era preciso fazeres--me cócegas nos pés". E acrescentou: "Vens em nome de quem?". O homem respondeu que vinha em representação de mais de duzentos milhões de europeus, porque agora já não era o simples primeiro de Portugal, mas o primeiro da Europa dos vinte e cinco.
"Tu devias saber que comigo as coisas não funcionam assim", retorquiu o Divino Infante, que logo acrescentou: "Quem de entre vós quiser ser o primeiro tem de colocar-se ao serviço de todos, tem de ser como o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela multidão. Entendes o alcance das minhas palavras?"
E ele, Carlos?
Engoliu em seco, Tio Ambrósio! Depois, quando ia a abrir a boca para se justificar, o Menino não lho permitiu, dizendo-lhe que não tinha gostado nada da sua atitude, não tanto pela vaidade e ambição que lhe estava subjacente, mas sobretudo pela cobardia de abandonar um projecto a meio da sua realização. "Um homem de bem, quando inicia uma obra boa, não deve olhar para trás". E mais não disse. O Zé Manel ficou ali sem saber se havia de avançar, se havia de sair às arrecuas, até que o patriarca José, com o cajado estendido, lhe indicou a porta de serviço, ao fundo da cabana. E mandou que entrasse o próximo...
Esse agora é que é, de certeza, o nosso Presidente! Estou em pulgas para saber os recados que tinha para ele o Divino Infante, sobretudo depois desta convocação de novas eleições.
Mas vai ter que aguardar mais um pouco, Tio Ambrósio! Não sei se foi do frio que fazia lá fora, se foi do contacto com aquela realidade ao mesmo tempo de pobreza e de elevação... o certo é que o nosso Presidente, que se agasalhava numa samarra alentejana, teve uma quebra momentânea de tensão. Coisa sem importância. Mas o suficiente para se fazer uma pausa no meu sonho.
Então fico a aguardar pela retoma, Carlos!