À sombra do castanheiro
- O Tio Ambrósio nem sabe as graças que deve dar a Deus! Aqui, neste refúgio, afastado da povoação umas centenas de metros, não chega o mais pequeno ruído. Sobretudo nesta época, em que a miudagem ainda não foi para as escolas, é um descanso de louvar a Deus. Lá à minha porta, o meu afilhado Samuel, quando chegam os seus amigos e companheiros Nuno e Miguel, não há quem possa ter um minuto de descanso. A minha Joana, que gosta sempre de passar pela brasa, depois de lavar a loiça e arrumar a cozinha, até costuma perder um bocado as estribeiras e mandá-los para a televisão ver as aventuras do Samurai X Ao menos enquanto têm os olhos pregados no televisor deixam a gente descansar um pouco.
- Pois a mim o que me faz falta é sentir, de vez em quando, a barulheira provocada pelas brincadeiras da miudagem. Creio que se passa o mesmo com todos os que têm idade para serem duas vezes avô. Até te posso dizer que um dos dias que mais me agradam, ao longo do ano, é aquele em que todos vocês, acompanhados das respectivas mulheres e da gente miuda, vêm aqui, pelo S. Martinho, comer a castanhada. E também não desgosto de passar junto de uma escola e ouvir a gritaria da miudagem na hora do recreio. Infelizmente, esse é um quadro que já se não pode apreciar em todas as aldeias. Nalgumas delas já nem crianças há para frequentarem a escola primária.
- Nisso tem vossernecê toda a razão, Tio Ambrósio! Eu não sei se li no "Amigo do Povo" ou noutro jornal qualquer que, este ano, nos distritos do interior, há umas dezenas de escolas primárias que não reabrem as suas portas em meados de Setembro. Ainda há dias estive a conversar com o meu afilhado Leonardo que me disse que, no concelho onde ele trabalha, lá para a zona da Serra, mais de metade das escolas primárias já não funcionam, nem isso seria rentável com apenas duas ou três crianças em cada povoação. O Tio Ambrósio já viu a despesa que era ter um professor para ensinar três ou quatro rapazitos?
- São os custos da interioridade, Carlos! Além disso, com a falta de emprego que existe na classe, essa seria uma maneira de se contribuir para a colocação de tantos jovens que terminam os seus cursos e permanecem anos a fio no desemprego. Vê o que se passa com a filha do Liberato, a Ernestina, que completou a licenciatura em Letras já vai para meia dúzia de anos, e continua a depender das colocações nos mini-concursos. Ainda há tempos a encontrei e, ao perguntar-lhe pelas perspectivas de futuro, me disse que eram as de ir andando, pelo menos mais outros tantos anos, à espera de um furo, em qualquer escola, na subtituição de um colega mais velho que recorra a baixa por doença ou se afaste temporariamente por qualquer outro motivo. E eu falo da Ernestina porque sei que é uma rapariga cheia de qualidades e que tem mesmo vocação para ensinar.
- Também não entendo que planeamento é que faz o nosso Governo. Andamos a pagar balúrdios aos ministros, aos secretários de estado, aos directores gerais, aos acessores, aos coordenadores de serviços e não são capazes ou não têm competência para planearem um ensino médio e superior que satisfaça as exigências quer da juventude quer dos mercados de trabalho. Médicos, não temos! Enfermeiros, não temos! Investigadores, não temos!
- Pelo contrário temos milhares de jovens licenciados sem emprego. Ainda há dias o meu amigo Coronel Gonçalves apareceu na televisão a confirmar a notícia de que vários rapazes, com cursos universitários terminados ou quase no fim, se foram inscrever para serem admitidos como bombeiros em Coimbra.
É uma profissão tão digna como qualquer outra, Tio Ambrósio!
Pois é! Mas denota falta de planeamento no ensino. A cultura e o saber nunca fizeram mal a ninguém. Mas nem um rapaz para ser bombeiro precisa de andar a queimar as pestanas durante dúzia e meia de anos, nem o país tem dinheiro para malbaratar em cursos que não dão aos jovens nenhuma prespectiva de futuro. Se pagamos aos ministros da educação, aos secretários de -estado do ensino, aos directores gerais de vários serviços, é para eles planearem, com alguma antecedência, os cursos necessários ao serviço da comunidade. É que nós temos jovens desejosos de trabalhar, e temos muitas actividades com carência de profissionais. Mas, se não houver planeamento, continuará a haver falta de profissionais e milhares de rapazes e raparigas à espera de uma colocação de que a comunidade não necessita,
- Como diz o Sanguessuga, é preciso um homem sentar-se para pensar no futuro!
- E não esquecer que o futuro começa hoje!
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