À sombra do castanheiro

– Que calor, Tio Ambrósio!

– Vem no tempo dele, Carlos! De resto, aqui, à sombra do meu secular castanheiro, nem temos nenhuma razão de queixa. Depois, com o regato que passa aí ao lado, podemos dizer que, em matéria de temperatura, estamos no céu.

– Já o meu avô que Deus tenha costumava cantar, quando se punham aí a versejar ao desafio, que "é um regalo na vida/ à beira da água morar!/ Quem tem sede vai beber,/ quem tem calma vai nadar".

– O teu avô era derramado para as cantigas populares! Nisso, apesar de todo o jeito que Deus te deu, ficas a muitas léguas dele. Ainda me lembro do tempo em que, por esta altura do S. João, no terreiro da nossa terra, era ele mais o Tio Alfredo da Forja, um com uma gaita de beiços e outro com a sanfona, botando quadras ao desafio. Às vezes aguentavam o despique por mais de duas horas, até que o Carolino da Venda, satisfeito com a cantoria, vinha interromper o duelo com uma rodada de tinto, de que eram ambos grande e indefectíveis apreciadores.

– Deixaram por cá bons continuadores, Tio Ambrósio! E refiro-me, evidentemente, às cantigas ao desafio, que, no mais é melhor a gente nem falar. Não me diga que não gostou da nossa sessão do passado domingo. É verdade que a sermoneta do Sanguessuga não atingiu aquele nível a que nos habituou, não por falta de dons oratórios, que os tem de sobejo, mas em virtude do tema escolhido, que não podia agradar à maioria dos
ouvintes. O povo, nestas ocasiões, o que quer é um discurso de esgalha-pessegueiro, com bordoada de alto a baixo! Ora vir para ali tentar explicar o novo símbolo, ou logotipo, ou lá o que é, do nosso Cabeço natal, não lembrava a ninguém, porque ainda não vi uma única pessoa com juízo cá da terra a entender o que quer dizer uma gatafunhada daquelas. E, por cima, parece que a autarquia teve que desembolsar uns milhares largos pelo rabisco. As más línguas até dizem que aquilo é uma cópia tirada de não sei que desenho que corre aí na internet.

– Isto quando alguns dos nossos concidadãos começam a falar, também é melhor a gente fechar os ouvidos. Aumentam-lhe sempre um ponto, ou mais! Mas, neste caso, posso afirmar-te à fé de quem sou que nunca esperei ver tamanho disparate. Por mais explicações que nos
façam, não é possível tirar-se outra conclusão que não seja a do atraso cultural, para não dizer outra coisa, de quem fez a encomenda e de quem executou o trabalho. Razão tinha o Justino para, depois de lhe darem um panfleto, com aquele O de boca aberta, perguntar se não seria melhor pagarem, pelo mesmo preço, um C de cão, pois sempre tinha a vantagem de ser a letra inicial da palavra Cabeço. É, aliás, também a inicial da palavra Cultura, da palavra Coração, da palavra Consciência e da palavra Civilização. Ora um O de boca aberta, como um boi a olhar para um palácio, apenas pode querer dizer Ócio, Obtuso ou Oco, que é a palavra que se usa para significar alguma coisa que não tem miolo, que não tem valor ou que não tem sentido.

– O Liberato, que é dos homens mais lidos da freguesia, afirma a pés juntos que se trata de uma tolice de todo o tamanho. Mas o Sanguessuga vai engolindo em seco, porque lhe encomendaram o sermão e, agora, parece mal voltar com a dele atrás. Aquele O de boca aberta, ao que afirma, parece que quer dizer Desenvolvimento, Progresso e não sei que outros conceitos do mesmo calibre, que o mesmo é dizer que são de calibre zero.

– Agora é que tu lhe deste no vinte, Carlos! Um O, mesmo de boca aberta, quer dizer, em qualquer parte do mundo, zero, absolutamente nada, niente, rien du tout, nothing...

– Isso é que é falar línguas, Tio Ambrósio!

– Mais do que isso, Carlos! Um O de boca aberta, cá no meu dicionário de sinónimos, quer dizer Omissão, ou seja, o resultado daquilo que devia ter sido realizado e ficou eternamente esquecido no limbo das coisas por fazer. Eu já nem falo de projectos adiados lá para as calendas do século vinte e dois, pois no vinte e um estamos nós, e há dele de que se ouve falar desde a primeira metade do século vinte, ou mesmo antes...

– O Liberato bem diz que andamos pelo menos com cinquenta anos de atraso.

– E não está a exagerar nada, Carlos! Por isso eu proponho, quando se passar ao pé desse símbolo, desse O de boca aberta, que se descreva o Cabeço como terra de Ostracismo, ou pelo menos como terra de Olvidamento.

– E os promotores deste novo símbolo não irão dizer que é vossemecê e os da sua geração que estão a ficar Obsoletos e Obscurantistas?

– Pois que digam, Carlos! Em democracia todos somos livres de dizer! Mas, que eu saiba, ninguém perguntou ao povo se pretendia ou não mudar o símbolo da sua bandeira. Por isso, o melhor que faziam era terem a humildade suficiente para dizerem que se precipitaram. Errar é próprio do homem! Mas persistir no erro não é próprio dos sensatos.

– Fica registado, Tio Ambrósio!