À sombra do castanheiro

- Ainda não foi desta, meu caro Carlos do Cabeço, que tive a dita de te ver investido no alto cargo de ministro da república, ou mesmo que fosse no de secretário de estado.

- A concorrência é muita, Tio Ambrósio!

- Parece que não foi assim tanta, Carlos! Pelo que eu vi nos jornais, o nosso primeiro fartou-se de procurar alguém que estivesse à altura de tutelar a difícil pasta das finanças e acabou por recorrer à prata da casa. Mesmo com os empurrões do doutor Soares e a interferência mais que natural do Presidente Sampaio, não houve um único homem digno de crédito nesta matéria que quisesse correr o risco de tentar salvar do naufrágio as contas públicas deste país. E a verdade é que todos sabemos que existem pelo menos meia dúzia de homens com competência para desempenhar com eficiência essa missão patriótica. Tu sabes por que razão nenhum deles aceitou a tarefa?

- Boa pergunta, Tio Ambrósio! Ainda ontem à noite, no café do Sanguessuga, alguns do nosso grupo de amigos discutimos precisamente esse assunto, enquanto, na mesa ao lado, havia outros mais interessados em opinar sobre as últimas transferências dos clubes de futebol.

- E quais foram as opiniões dominantes?

- Cada cabeça sua sentença, Tio Ambrósio! 0 Liberato avançou com a teoria da recusa da segunda escolha.

- O que, trocado por miúdos, quer dizer...

- Quer dizer que ninguém com créditos firmados no mundo da finança está disposto a emendar agora os erros que podiam ter sido evitados se o nosso primeiro, quando constituiu o governo, tivesse chamado para essa pasta quem soubesse do oficio. Entrar agora na equipa governamental é aceitar ser, na prática, o suplente do ministro destituído. Acha que algum nome grande estaria nessa disposição?

- Sei lá, Carlos!

- O meu cunhado Acácio adiantou uma explicação diferente. O problema, segundo o seu ponto de vista, foi o do baixo salário atribuído ao titular do ministério das finanças, que é um ministério com muita responsabilidade e muitas dores de cabeça. Ora acontece que os senhores professores e doutores com créditos firmados estão a gerir empresas ou grupos económicos onde ganham dez ou vinte vezes mais do que iriam ganhar como ministros. Acha que algum nome grande estaria nessa disposição?

- Sei lá, Carlos! O prestígio também conta!

- Mas acontece que nenhum desses senhores professores precisa de ser ministro para ver o seu nome citado nos noticiários televisivos ou nas primeiras páginas dos jornais.

- Isso é verdade!

- O barbeiro Ernesto, influenciado pela conversa dos vizinhos da mesa ao lado, foi de opinião que esses senhores professores não quiseram assumir a pasta das finanças porque não estiveram para integrar urna equipa de reservas.

- Essa é boa! Uma equipa de reservas?!

- Pois claro, Tio Ambrósio! Se já nem o capitão da equipa mostra força anímica e competência para prosseguir em campo, fatigado e abatido por tantas contrariedades! Esta, segundo o Ernesto, é uma equipa de reservistas, sem condições para aguentar o encontro até ao fim. Nestas condições, acha que algum nome grande estaria na disposição de vestir a camisola?

- Parece-me que a vossa conversa foi verdadeiramente derrotista!

- É a falta de confiança do povo, Tio Ambrósio! E ainda vossemecê não sabe a opinião do Sanguessuga para a recusa desses conceituados senhores professores e doutores em aceitarem a pasta das finanças.

- Nem tento adivinhar, Carlos!

- Pois eu digo-lhe! Falta de patriotismo! Falta de amor à Pátria, Tio Ambrósio!

- Essa é forte, Carlos! Eu nunca me atreveria a lançar uma acusação tão grave sobre personalidades de reconhecido valor e merecimento.

- Pois para o Sanguessuga perdem todo o valor e toda a credibilidade no momento em que se recusam a tentar salvar de naufrágio iminente a barca da lusa governação. "Em momentos de crise afirma o Sanguessuga - o interesse colectivo deve sobrepor-se ao interesse individual. Ninguém, de consciência bem formada, pode dormir tranquilo quando sabe que a derrocada vai atingir sobretudo os mais pequenos, os reformados e os que têm de sobreviver com o mísero vencimento de umas dezenas de contos".

- Infelizmente, o Sanguessuga tem carradas de razão. O pão, quando escasseia, começa por faltar sempre na mesa dos pobres. Mas, meu caro Carlos, tenhamos esperança! Até pode acontecer que tudo isto não passe de um ameaço de vendaval.

- Deus o oiça, Tio Ambrósio!

Copyright O AMIGO DO POVO - amigodopovo@sapo.pt

Produção:
amigopovo1.jpg (17264 bytes) seta.gif (554 bytes)