À sombra do castanheiro
- Está visto, Carlos, que tu não vais ser o novo ministro da cultura, nesse governo que o nosso primeiro António tem em vias de remodelação. Pelo menos assim o julga o Sanguessuga, a avaliar pela representação com que vos presenteou pelos santos populares.
- É verdade, Tio Ambrósio! Da última vez que por aqui passei, deixámos o Sanguessuga precisamente pendurado no seu papel de primeiro ministro em busca de elementos para a constituição do novo gabinete governamental. Só para a cultura, como lhe disse, entre autarcas com desejos de promoção e a caterva dos ditos independentes, há umas centenas de candidatos. Mesmo que vossemecê seja de opinião que uma quarta classe de adultos do meu tempo valha agora por alguns cursos superiores, não estou em crer que a escolha recaia sobre mim. Posso, por isso, dormir descansado! De resto, na representação do Sanguessuga, o nosso primeiro, com aquela lábia que todos lhe reconhecemos, acabou por dar uma no cravo e outra na ferradura, de tal modo que ninguém ficou a entender patavina sobre os caminhos que, neste futuro mais próximo, vai trilhar a governação (ou a desgovernação, como repete constantemente o meu cunhado Acácio) da coisa pública.
- Quer isso dizer que, na perspectiva do Sanguessuga, o nosso primeiro está metido numa camisa de onze varas, sem sabeR se há-de deixar afundar ainda mais a barcaça, ou se está na altura de mudar alguns dos fatigados e abatidos membros da tripulação, num esforço derradeiro para conseguir chegar a um qualquer porto de abrigo.
- O Sanguessuga resumiu esse estado de espírito numa única palavra: perplexidade! 0 nosso primeiro está perplexo, o que nem é nenhuma doença má, graças a Deus!
- Em palavras mais simples, o senhor engenheiro das Donas está a atravessar um período de indecisão, sem saber muito bem qual será a rota a seguir, de modo a salvar pelo menos a própria pele.
- É, Tio Ambrósio! 0 nosso primeiro está perplexo e desiludido! Parece que ele já terá confessado nos círculos mais íntimos que o seu maior problema é acertar num homem da sua inteira confiança para número dois do seu gabinete. Até aqui todas as apostas saíram falhadas. Primeiro foi o doutor Vitorino que se viu obrigado a abandonar o cargo por causa da ilegalidade na compra de um monte no Alentejo. Depois foi o Jorge de Mangualde que, para além do ruinoso negócio da nossa companhia aérea (uns milhões de contos que foram para o maneta!) aproveitou o desastre de Entre-os Rios para se pôr ao fresco. As esperanças depositadas num outro delfim, o senhor Vara de Trás-os-Montes, deram em águas de bacalhau por via daquele negócio, ainda hoje bastante obscuro, das "dações financiadas com os dinheiros públicos...
- O rol ainda não termina aí, Carlos?
- Ainda a procissão não vai no adro, Tio Ambrósio! Daí que, na versão do Sanguessuga, o nosso primeiro tenha desabafado com o público, contando uma conversa que tivera, na inútil cimeira de Gotemburgo, com alguns dos outros chefes de governo da Europa. À mesa do almoço ficaram juntos o Blair da Inglaterra, o Aznar de Espanha, o Jospin de França e, como não podia deixar de ser, o nosso primeiro António. Lá foram contando as suas mágoas uns aos outros, pois neste capítulo das mágoas não há quem as não tenha. 0 primeiro ministro inglês, saído de eleições que lhe deram a maioria, estava com um grave problema...
- Isso é anedota, Carlos!
- E não há anedotas verdadeiras? Pois o que se passou é que o senhor Biair tinha um problema. Para formar o seu novo gabinete procurara, entre todos os seus vinte e cinco ministros, um que acreditasse na Europa e, até ao momento, não encontrara um sequer.
- Os ilhéus olharam sempre com desconfiança os continentais. Por certo ainda se não esqueceram do bloqueio decretado pelo Napoleão!
- Talvez, Tio Ambrósio! Mas pior estava o Jospin para remodelar o seu governo. Entre os vinte ministros procurava um, para a pasta dos estrangeiros, que dominasse o inglês e ... nada!
- E o "nuestro hermano" Aznar?
- Azar, Tio Ambrósio! Pretende remodelar o seu gabinete mas, entre os quarenta ministros e secretários de Estado sabe que existe um infiltrado nacionalista basco. Porém... não sabe quem é!
- Quer remodelar o governo e sabe que, para seu número dois, no seu actual gabinete, entre os dezoito ministros há um realmente competente!
- Mas não sabe quem ele é!
- É preciso ter galo, Tio Ambrósio!
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