À sombra do castanheiro
- 0 Tio Ambrósio imagina o que são mil milhões de contos? É muita massa!
- 0 nosso amigo Sanguessuga diria que não é uma pipa, mas que são uma data de pipas de massa, Carlos! Só não percebo é a razão de ser dessa tua pergunta, porque não te vejo metido em negócios que envolvam contas tão astronómicas. Porque, pensando bem, mil milhões de contos são uma quantia verdadeiramente fora do comum.
- Ah! Pois são, Tio Ambrósio! 0 meu cunhado Acácio esteve a tentar fazer contas de cabeça, que é a especialidade dele, e chegou à conclusão que, sem o auxílio de qualquer maquineta, isto é, utilizando apenas as mãos e um pouco de cuspo, um homem passaria pelo menos vinte anos a conferir esses mil milhões de notas de conto, o que desceria para dois anos se as ditas fossem de dez...
- Por essas contas, se as notas fossem das mais pequenas que andam por aí em circulação, estaria um cidadão a contar nelas mais de quarenta anos, apenas com uma hora por dia para almoçar e o domingo para ir à missa...
- Ora veja o Tio Ambrósio!
- É melhor nem pensarmos nisso, para não corrermos o risco de termos alguma cãibra na massa encefálica, que é como quem diz no juizínho que Nosso Senhor nos deu. Mil milhões de contos!
- Pois foi essa quantia, sem tirar nem pôr, que os gestores da coisa pública esbanjaram nesta última meia dúzia de anos.
- Não haverá aí engano ou, pelo menos, uma boa dose de exagero? É que, no estado actual das coisas, sobretudo em matéria de informação, é preciso andarmos sempre com um pé atrás. Há por aí demasiadas novelas da vida real. Não sei se entendes, Carlos! Embora sendo da vida real, não deixam de ser novelas, isto é, forjadas de uma tal maneira que nos levem a acreditar que são verdadeiras.
- Não é o caso, Tio Ambrósio! A afirmação é do Professor Aníbal que, depois de alguns anos de silêncio, resolveu abrir o livro da sua larga experiência. Vinda de onde vem é, pois, uma afirmação digna de todo o crédito. Pelo menos eu tenho-a nessa conta! E nem vejo razão para vossemecê estar aí a torcer o nariz. A não ser que tenha algum dos seus trunfos na manga...
- Não, Carlos! Quem sou eu para pôr em questão os altos conceitos económicos e financeiros de gente tão ilustre?
- Então não entendo essa sua expressão de desconforto perante as conclusões do professor de Boliqueime. Será que ele exagerou?
- Os políticos exageram sempre, Carlos! Tanto os da esquerda como os da direita! Tanto os do governo como os da oposição! Daí que tenhamos de dar o devido desconto às suas declarações, sobretudo quando eles se dizem convencidos de que nunca têm dúvidas e raramente se enganam.
- 0 Tio Ambrósio desculpe que eu lhe diga isto, mas parece-me que não está a ser justo em relação ao Professor Aníbal.
- Não estarei?
- Penso que não! Pois se até o nosso primeiro se limitou a dizer que todos esses milhões tinham sido investidos a levar por diante a política social do rendimento mínimo garantido e do quase pleno emprego
- E não foram, Carlos?
- 0 rendimento mínimo, que é a tábua de salvação a que sempre se agarram os membros do actual governo, não consome nem um décimo dessa astronómica quantia...
- Então, onde é que se malbarataram tantos milhões?
- Só o negócio ruinoso daquele acordo entre a TAP e a transportadora aérea suíça meteu um rombo de várias dezenas de milhões. E o certo é que os responsáveis pela operação andam por aí, de cara pouco lavada, é certo, mas arrotando postas de pescada. Quem os molestar, fique sabendo que não vai sem resposta! Não houve um deles que até chegou a dizer que quem se mete com o seu partido, leva?
- Isso não passou dum desabafo ocasional!
- Mas o certo é que a má gestão dos dinheiros públicos não se ficou por aqui. Que me diz vossemecê àquela política, igualmente ruinosa, da criação de não sei quantas fundações, ou de não sei quantos institutos, com a finalidade de multiplicar os lugares, com ordenados altíssimos, para os apoiantes e correligionários dos ministros?
- Que hei-de dizer, Carlos? Dizia um filósofo de antigamente que contra factos não há argumentos. Eu, porém, neste caso, acrescentaria que é preciso ter cuidado com as pedras que se atiram ao ar, pois há por aí muitos telhados de vidro.