À sombra do castanheiro
- Bons olhos te vejam, Carlos! Com camisa branca e gravata, estou mesmo a adivinhar que ternos passeio para fora dos limites do Cabeço.
- Por acaso até acertou em cheio, Tio Ambrósio! Vou mai-lo compadre Silvano, ali para as bandas de Ansião, participar num pequeno convívio organizado por colegas que andaram connosco na vida militar. Quase todos os anos se organiza esta reunião de amizade, mas eu, por um motivo ou por outro, tenho faltado muitas vezes. Mas desta, a Joana deu-me dispensa. E lá vou! 0 Tio Ambrósio até podia fazer-nos companhia. Tenho a certeza que muitos dos presentes haviam de ter gosto em conhecer a sua pessoa e conversar consigo. Quando vou a qualquer lado e me apresento como Carlos do Cabeço, quase sempre encontro alguém que manifesta o desejo de o conhecer, havendo muitos, sobretudo entre os mais entradotes na idade, que lhe enviam cumprimentos. Venha daí connosco, Tio Ambrósio!
- Desta não calha, Carlos! Mas, já que vais para a zona de Ansião, vou incumbir-te de uma missão que, segundo me parece, desempenharás com todo o gosto.
- Basta ser vossemecê a dizê-lo! Um desejo seu, para mim, é uma ordem!
- 0 que eu quero é que, se tiveres um momento livre, vás cumprimentar, por mim e por ti, o novo director do "Amigo", o senhor Padre Manuel Ventura Pinho, que, no jornal da semana passada, na sua nota de abertura, foi extremamente simpático para connosco, distinguindo-nos como os mais antigos colaboradores do periódico.
- Bem alembrado, Tio Ambrósio! Vou fazer o possível por passar por sua casa e, mesmo que o não encontre, o que é muito provável por ser domingo, que é dia de ocupação redobrada para os senhores priores, deixo-lhe lá um cartão a felicitá-lo, em nome de nós ambos, pelo facto de ter assumido esta tarefa de fazer chegar, todas as semanas, a milhares de famílias, a mensagem cristã da alegria, do amor e do bom entendimento entre todos.
- Podes ainda acrescentar que nos parece acertada esta remodelação directiva. Assim o nosso primeiro Guterres tivesse pontaria para acertar nas pessoas que, num futuro próximo, deviam ocupar os lugares de ministros e secretários de Estado...
- Então o Tio Ambrósio acredita que o senhor engenheiro das Donas está disposto a remodelar, para bem de todos, o governo da Nação?
- Se eu tivesse o privilégio de privar de perto com o senhor engenheiro Guterres, e se ele quisesse aceitar os conselhos dum velho, dir-lhe-ia que, em vista do estado a que chegaram muitos dos departamentos públicos, uma atitude dessas não seria apenas desejável, mas toma-se urgentemente necessária. Todos sabemos que, em democracia, os governos têm urna duração limitada, esgotando-se, corno agora se diz, em poucos anos de exercício do poder.
- É verdade, Tio Ambrósio! E este, infelizmente, está mais que esgotado! Eu até não sei bem se, numa circunstância destas, já será suficiente uma operação plástica, destas que agora por aí se fazem, que tiram as rugas da cara e do pescoço, mas não tiram a podridão que vai lá por dentro. Precisamos duma remodelação de fundo! Como diria o meu avô que Deus tenha em glória, a doença chegou a tal estado, e provocou feridas tão abertas e purulentas, que já se não cura com paninhos de água quente. Já não é preciso falar dos problemas ligados à saúde, a que nos ternos referido tantas vezes, e que parecem constituir um beco sem saída. Nem precisamos de recordar a grande paixão governamental, proclamada durante vários anos aos quatro ventos, mas que acabou em todas as contestações que vossemecê por aí vê todos os dias. Basta pensarmos no estado da justiça em Portugal, Tio Ambrósio! Parece-lhe que o povo português pode confiar nesta justiça que temos?
- Ou que não ternos, Carlos? As grandes queixas que eu ouço por aí vão no sentido de contestar a morosidade da aplicação das leis. Parece que uma alta percentagem das questões que entram nos tribunais para julgamento acabam no arquivo, umas vezes por falta de provas, o que é compreensível, e outras por se deixarem caducar todos os prazos, o que já me parece merecedor de crítica e mesmo de desaprovação.
- 0 Sanguessuga costuma dizer que, pior do que essas demoras, é o facto de quase sempre o peixe grosso sair airosamente das contendas, ao passo que a arraia miúda paga habitualmente pela medida grossa. Paga e não bufa!
- Para alterar tudo isto, eu não sei se bastará a mudança de um ministro ou de meia dúzia de secretários de Estado. Não te parece, Carlos?
- É provável que não, Tio Ambrósio! Mas havemos de voltar a falar do assunto, que temos aí pano para mangas. Agora deixe-me ir ao encontro dos meus antigos colegas de tropa, para recordar belos momentos da nossa juventude.
- Vai com Deus, Carlos!
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