Testemunhos vivos

 

Mais aldrabices!

Um dos livros mais vendidos nos últimos 12 meses apresenta um rol de aldrabices que supera e muito as do filme «Estigmatizada». Muitos dos meus leitores conhecerão o "Código da Vinci". A capa apresenta-o como romance. Mas nela também está escrito: "Uma verdade escondida durante séculos é finalmente revelada!"

Quer dizer: o autor apresenta-se como criador duma obra de ficção mas ao mesmo tempo quer iludir os leitores de que se trata de revelar uma verdade histórica, que as igrejas cristãs esconderam até hoje.

O romance tem por trama um assassínio que prende o leitor até à descoberta final. Partindo de Paris, somos levados até Londres, onde, na Charter House da abadia de Westminster, é revelada a identidade do "Mestre" que tinha arquitectado os assassínios. Como prova apresenta a Última Ceia de Leonardo Da Vinci. O grande génio pinta a figura da Madalena à direita de Jesus, e não o apóstolo João. Defende que Jesus tinha casado com Maria Madalena, da qual tinha um filho. Maria Madalena era o célebre Santo Graal do sangue de Cristo. Estava, assim, desvendada a verdade escondida durante séculos. Mais ainda, Madalena, por disposição de Jesus, devia suceder-lhe na condução da Igreja dos discípulos. Mas a Igreja dos homens, dos Doze e dos que se lhe seguiram, tudo fizeram para calar o ministério da Madalena, transformando-a numa prostituta.
Descoberto tão bem guardado segredo de 2000 anos, o Vaticano vai pedir ao Opus Dei para o ajudar a liquidar os actuais descendentes do filho de Jesus e da Maria Madalena. Para tanto, contrata um ex-matador convertido, agora monge do Opus Dei.

Temos de concordar que o autor de tal romance é um homem esperto, que quer matar vários coelhos ao mesmo tempo. Vender bem o produto que inventou, auferindo assim fortuna material, e, por outro lado, desferir um «golpe profundo» no cristianismo, sobretudo na Igreja Católica, que ele considera obra maléfica.

Não vale a pena gastar muita tinta a desmontar tais aldrabices. Umberto Eco, que é uma pessoa insuspeita, escreve sobre os assuntos tratados neste livro o seguinte:
"Não há nada mais simples do que encontrar um livro sobre os Templários. O único problema é que em 90% dos casos (desculpem, 99%) tais livros são patranhas, porque nenhum assunto inspirou tantos pensadores medíocres ao longo dos tempos como a história dos Templários.
E daí o renascimento contínuo dos Templários e a sua presença constante por detrás dos acontecimentos históricos, seja com seitas gnósticas, irmandades satânicas, espiritualistas, ordens pitagóricas, Ordem da Rosa-Cruz, maçonaria ou o Priorado do Sião.
Às vezes a patranha é clamorosamente evidente, como em
O Sangue de Cristo e o Santo Graal de Michael Baigent, Henri Lincoln e Richard Leigh, onde a má-fé dos autores é tão manifesta como inescrupulosa. Mas, pelo menos, isso permite ao leitor com bom senso ler a obra como um exemplo divertido de literatura fantástica. O mesmo acontece actualmente com O Código Da Vinci, que é uma versão remisturada de várias obras anteriores."

M. V. P.