Testemunhos vivos
O legado do Papa
O testemunho de hoje, colhi-o de «O Correio da Manhã». E vem mesmo a calhar, nesta Semana de Oração pelas Vocações.
«Desde criança que Marcos tinha um segredo que guardava, a sete chaves, da família e dos amigos. Um segredo que deixou de estar apenas com os deuses aos 23 anos quando, na véspera de entrar para o seminário, telefonou aos pais a dar a notícia. ‘Ficaram muito preocupados, perguntaram-me o que é que me tinha acontecido na vida para tomar uma decisão tão radical de me tornar padre. Sempre foram catequistas, trabalhavam e rezavam pela vocação dos outros, mas nunca pela dos filhos. Queriam que tivesse uma vida normal’.
O que aconteceu a Marcos, hoje padre e estudante de direito canónico em Roma, aconteceu também a outros.
A Carta-exortação "Dar-vos-ei pastores", que o Papa escreveu ao mundo, teve em Marcos um fiel destinatário. Leu-a para si, às escondidas, enquanto estudante de engenharia em Lisboa – e leu-a mais tarde, para os outros, enquanto padre que se estreava na primeira missa no Funchal. Foi este texto de João Paulo II que o fez decidir a abraçar o sacerdócio, algo que estava há muito no seu pensamento, mas a "falta de coragem" e o "medo de falhar" adiavam a decisão.
Uma vez disse ao irmão e aos três outros estudantes madeirenses com quem partilhava o apartamento em Lisboa que ia uns dias para fora fazer um trabalho de grupo. Contudo, não era a matéria do curso de engenharia que foi trabalhar ao retiro de jovens católicos em Palmela. Era a sua vocação. "Lembro-me de estar debaixo de uma oliveira a pedir a Deus um sinal. Esperei, ao frio, durante uma hora. Nada aconteceu", conta, soltando uma gargalhada.
O sinal veio com a exortação papal. "O desejo de deixar tudo o que fazia, tudo o que me apaixonava na vida mundana e abandonar-me completamente numa aventura que não sabia onde ia parar". A única certeza era a de que "estava no caminho da fé". João Paulo II falou a sua linguagem, como falou a linguagem de tantos outros jovens que, mesmo sem escolher o caminho do sacerdócio, encheram por ocasião da sua morte a Praça de São Pedro. É esta capacidade de chegar aos mais novos que Marcos diz ser o grande legado de Karol Wojtyla.
M. V. P.