Pitada de sal
Por Isaías Saleiro
Esta noite tive um sonho que não é fácil de compreender nem de interpretar:
Eu via muitas igrejas e capelas em festa e o povo numa azáfama. Muitos corriam para lá e outros para cá com trajes festivos, luxuosos, enquanto alguns punham foguetes, muitos foguetes, uns atrás dos outros. Orquestras e filarmónicas percorriam as ruas. Nos adros havia um grande número de pessoas mal vestidas, rotas e descalças, rosto pálido com aspecto de fome que me pareciam desprezados e a pedir esmola e não queriam entrar nos templos por se sentirem sem alento e sem acolhimento. No meio deles viam-se figuras de santos que choravam condoídos, por não terem que dar a esses pobres.
Dentro de cada templo eu vi vários andores com imagens de Nossa Senhora e com imagens de santos, que estavam a ser preparados para as procissões. E vi mordomos que se dirigiam aos andores trazendo nas mãos cofres com dinheiro e adereços de ouro que muito cuidadosamente punham ao peito e nas mãos das imagens. Eram notas de dinheiro, cordões, fios, brincos, argolas, alianças, anéis, corações, etc.
E eu vi em cada templo uma figura humana, que saiu do altar e veio pelo templo abaixo. Era um ministro sagrado revestido de vestes litúrgicas. Indignado e escandalizado, dirigiu-se aos mordomos de cada templo e recomendou-lhes em tom de voz suave que não pusessem nem o ouro nem as notas nas imagens dos andores porque isso não agradava a Deus e que levassem metade aos pobres que estavam cheios de fome e mal vestidos lá fora. Mas os mordomos não lhe deram ouvidos.
Cá mais abaixo vi muito povo que ameaçava, de punhos cerrados, os mordomos se eles não pusessem o ouro e as notas nas imagens dos andores. E eis que, em cada templo, se viu descer do céu uma figura de aspecto sobrenatural que me parecia um Ancião com barbas compridas, revestido de túnica branca e capa vermelha, o qual, dirigindo-se aos mordomos e aos que os ameaçavam se não pusessem o ouro e as notas nas imagens, falou com voz grossa e estrondosa:
"Tenho na Minha presença o vosso empenho e a vossa dedicação mas abomino o que estais a fazer.
Não quero sacrifícios nem holocaustos mas a misericórdia e a caridade.
As Minhas delícias são viver entre os homens, no meio dos pobres e dos humildes da Terra."
Depois de ouvidas aquelas ressonantes palavras, que vibravam com eco até muito longe, vi sair da frente daquele majestoso Ancião que as pronunciou uma figura de jovem, cheio de beleza, com túnica branca e com asas, de corpo tão diáfano que parecia transparente, que voou em direcção às imagens que estavam nos andores. Saudou-as reverentemente e soprou fortemente nas notas e no ouro que as cobriam e vi, as notas e o ouro, a voar pelas portas fora, caindo nas mãos daquelas figuras que me pareciam S. Francisco de Assis, S. Vicente de Paulo e Madre Teresa de Calcutá. E, sem demora, assistiram aqueles pobrezinhos e doentes que, depois de confortados, alentados e acolhidos, entraram também nos templos e participaram alegremente nas festividades litúrgicas para que ali não faltasse também o indispensável rosto de Jesus Cristo pobre, humilde e sofredor.
E, tendo acordado lá para as três da madrugada, fiquei-me a pensar neste sonho e o que quereria ele dizer.
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