O futuro Papa

Em relação ao próximo pontificado, há quem não oculte o desejo de que a palavra-chave seja «novidade». Só que a palavra-chave para caracterizar o futuro Papa vai ser «fidelidade». Fidelidade ao que é novo desde há dois mil anos. E que se tornou (ainda) mais urgente desde há 26 anos!

Confesso que é com pesar que noto que os equívocos revelados na avaliação de João Paulo II persistem na equação acerca do seu sucessor. Especula-se abundantemente sobre nomes, potenciais alinhamentos e putativos favoritos. Os critérios vão do geográfico ao etário, passando pelo ideológico e até pelo político. Há mesmo quem não hesite em conjecturar em torno da «política» (!!!) a seguir pelo Sumo Pontífice a eleger pelo Conclave. Já agora, que diríamos se víssemos considerações à volta da «pastoral» a implementar por um determinado agente político?

Concluamos, por isso, uma vez mais: 26 anos não chegaram para alguns perceberem quem foi verdadeiramente este Papa. Importa, porém, ir mais longe: dois mil anos (ainda) não bastaram para muitos entenderem o que é a Igreja.

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A mínima aproximação ao seu mistério fundador mostra que há uma perene novidade que ela transporta: a principalidade do amor a Deus e a urgência do amor ao próximo. O próprio Jesus qualificou como «novo» o Seu mandamento (Jo 13, 34). Vinte séculos depois, podemos dizer que a novidade se mantém num duplo sentido: no sentido de que nunca passa de moda mas também no sentido de que (infelizmente) ainda não nos dispusemos a praticá-la com a intensidade devida quer no plano pessoal, quer à escala global.

Por conseguinte, ninguém na Igreja está investido do poder de criar novidades. Todos, a começar pelo «Servo dos Servos de Deus», estamos incumbidos da missão de testemunhar a novidade que nos foi confiada pelo Senhor Jesus.

Daí que, ao contrário do que se insinua, seja bastante fácil suceder a João Paulo II na cátedra de Pedro. Basta, como ele, levar Jesus Cristo ao mundo inteiro, fazendo uso de todos os meios que estiverem ao seu alcance. A grande lição do Santo Padre consistiu na forma como ele soube pegar no «depositum fidei» (depósito da fé) — que é também um «depositum amoris» (depósito de amor) — e apresentá-lo de um modo convincente e belamente apetecível. E foi assim que ele transformou mais o mundo do que o mundo o transformou a ele.

                                                                                                                                  João António Pinheiro Teixeira