Ainda a Encíclica

É muito rica a primeira Encíclica do Papa Bento XVI. Já fiz um resumo dela no último número. Mas quero hoje acentuar o que o Papa escreve sobre a força que a caridade sempre teve na história da Igreja.

«A meados do século IV ganha forma no Egipto a chamada «diaconia », que é, nos diversos mosteiros, a instituição responsável pelo conjunto das actividades assistenciais, pelo serviço precisamente da caridade. A partir destes inícios, desenvolve-se até ao século VI no Egipto uma corporação com plena capacidade jurídica, à qual as autoridades civis confiam mesmo uma parte do trigo para a distribuição pública.

caridade222.jpg (65444 bytes)

No Egipto, não só cada mosteiro mas também cada diocese acabou por ter a sua diaconia — uma instituição que se expande depois quer no Oriente quer no Ocidente».

«Uma alusão merece a figura do imperador Juliano o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada e praticada. Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelos guardas do palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele – com razão ou sem ela – ao imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo para se tornar realmente a força propulsora do império. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao próximo. Numa das suas cartas, escrevera que o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religião. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era uma característica decisiva da comunidade cristã, da Igreja».

A seguir, o Papa refere que desde os anos oitocentos, vemos levantar-se contra a actividade caritativa da Igreja uma objecção, explanada depois com insistência sobretudo pelo pensamento marxista: a caridade é uma fuga da luta pela justiça. Mas, ao contrário, a caridade é o fundamento de tudo o que queremos de melhor para ou outros.

                                                                                                                                                                                                                M. V. P.