O mistério da Cruz

Antes da última reforma litúrgica, o 5.º Domingo da Quaresma era conhecido como o primeiro da Paixão do Senhor. A partir dele cobriam-se os santos, deixando apenas à vista a cruz.

As leituras escolhidas continuam a chamar-nos a atenção para o mistério da cruz: «Quem tem amor à vida deste mundo, perde-a, mas quem a perde por causa da sua fé em Cristo, ganha-a para a Vida eterna».

Vale a pena meditar no testemunho dos santos: eles dão a vida por Deus e pelos outros e ganham a Vida no Céu. Como diz Jesus: «Se o grão de trigo não morrer, fica só.»

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Como disse o Papa João Paulo II, há algo que talvez só se aprenda contemplando a Cruz: a compreensão do sentido do sofrimento e da possível fecundidade da dor. Por inclinação instintiva da natureza, a civilização e a cultura evoluíram no sentido de eliminar o sofrimento e a dor, quase sempre considerados como um mal a evitar. «Não estou a insinuar que não é justo e bom lutar para mitigar, até às fronteiras do possível, o sofrimento dos nossos irmãos e isso faz-se, tantas vezes, na generosidade da caridade cristã, correndo riscos, aceitando privações e sofrimentos, dando a sua própria vida. Só se vence o sofrimento do mundo, aceitando dar generosamente a nossa vida em favor dos nossos irmãos. E esse é o tal testemunho assinalado com a Cruz de Cristo».

Mas somos forçados a reconhecer que o sofrimento foi e continua a ser, em todos os tempos, uma experiência humana tão universal como a da alegria e da felicidade. Ele é físico ou espiritual, causado pela violência e pelas injustiças, pela miséria ou pela doença, ou adquire os contornos da solidão, do abandono, da perda do sentido da vida. E perante uma experiência tão universal e tão intensa, ou nos deixamos esmagar pelo seu peso, ou o assumimos generosamente, oferecendo-o misteriosamente como semente fecunda de redenção. Podemos aprender esse sentido pascal da dor humana, contemplando e adorando a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. E essa é uma compreensão que alarga o nosso coração para o sentido da própria morte de Cristo, para a beleza do amor com que nos ama, para o sentido da nossa vida, tomada como um todo, chamada a ser dom e comunhão. A dor integra-se, então, na harmonia da vida, e pode mesmo revelar-lhe a sua beleza mais profunda.