NUM MUNDO DIFERENTE

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O realismo pastoral é uma condição elementar para que o nosso trabalho dê frutos e, antes de mais, para que os padres não sintam que andam a gastar-se em vão.

Este realismo poderá significar uma ponderada colocação do clero, uma actualização da linguagem na pregação, uma escolha inteligente dos métodos para evangelizar. Mas o realismo pastoral exigirá, primeiramente, o conhecimento dos destinatários. Quem são e como são hoje as pessoas que compõem as nossas comunidades? Como se caracterizam as estruturas sociais em que elas se integram? De que maneira se comportam os diferentes grupos etários e culturais frente à Igreja?

A estas e outras questões, todos respondemos com uma afirmação idêntica: "Está tudo a mudar"!

De facto, a população da Diocese de Coimbra deixou de ser uma sociedade serenamente cristã, constituída por famílias coesas e praticantes, organizadas em paróquias evangelizadas e respeitadoras... Estamos concordes em que esse mundo já desapareceu nas cidades e grandes vilas da nossa Diocese, onde se concentra a maioria da população, como rareia cada vez mais nas próprias aldeias, estas a desaparecer.

As nossas gentes assumem-se como católicas, têm brio na sua paróquia, respondem generosamente às iniciativas da Igreja... Mas a sua fé vem de raízes fracas, é elementar a sua cultura religiosa; muitos dos crentes guiam-se pela sua cabeça nos capítulos da moral e o tradicionalismo é quem mais os congrega na comunidade a que pertencem.

Estes são os homens e as mulheres a quem Deus ama e para os quais somos pastores.

Qualquer padre ou leigo mais atento é capaz de prolongar e concretizar esta descrição da nova sociedade e até de analisar as suas causas. E é digno de apreço quando o não faz com azedume e ladainha de lamentos!

Todavia, coisa estranha!, poderemos estar convencidos de que a sociedade mudou, mas continuarmos a desenvolver para ela uma pastoral de outros tempos! Não será isso o que em boa parte está a acontecer?

É que "mudar" não agrada. Poderá ser atraente para as crianças e os jovens, mas é penoso para os adultos, sejam eles os párocos ou mesmo os paroquianos.

E mais penoso se torna quando a mudança é para o desconhecido. Efectivamente, muito se vai escrevendo sobre as alterações que urge fazer, mas não está adquirido como se é pároco e se incultura o Evangelho numa população cada vez mais urbana, tomada pela pressa e pelo apetite de consumir, onde cada um é anónimo e trata de si. Numa sociedade assim, e a da nossa Diocese para isso caminha, como reunir com frequência, celebrar com calma, enraizar com fidelidade?

Acresce que para construir Igreja parecem minguar os obreiros. Os padres diminuem e, os que temos, sentem cada vez mais as limitações da idade... E não se adivinha para breve o aumento de ordenações... Generosos que são, os sacerdotes confessam não entender as novas gerações, nas quais apontam um desconcertante relativismo moral e a fuga ao compromisso...

E não são os padres os únicos a experimentarem dificuldades e interrogações. Que dizer das famílias, tão inseguras sobretudo perante a instabilidade dos seus filhos?

D. Albino In Carta Pastoral – 2º capítulo

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