Bordoada no Templo

O evangelho da Missa do Dia Cáritas fala-nos de um episódio acontecido com Jesus: um dia, en-trando no Templo de Jerusalém, ficou tão profundamente chocado com o ambiente naquela área do Templo reservada ao acolhimento dos es-trangeiros (e que entretanto tinha sido ocupada pelos "comerciantes das coisas sagradas"), que pegou num chicote e derrubou as bancas e o dinheiro! Tudo p'ró chão!, que o espaço que devia ser de encontro com os homens mais necessitados de serem acolhidos estava trans-formado em local de negócio.

Reparemos nisto: o espaço onde Jesus distribui bordoada não é dentro do Templo, onde as pessoas estavam em oração e louvor a Deus. Aí parece que está tudo certo. O espaço que O indigna é aquele onde deviam ser acolhidos os estrangeiros, e que não está a ser utilizado para esse fim. Mas, a verdade é esta: se não está a ser usado para esse fim, é porque as pessoas que estão lá dentro a rezar, muito santinhas, afinal se tinham esquecido dos irmãos...

Vale a pena pensar um pouco na atitude que Jesus teria se viesse hoje à nossa igreja, não às igrejas de pedra, mas à Igreja de pessoas que somos nós. Iria alguma coisa parar também ao meio do chão, à força de bordoada? O estarmos a rezar dentro dos templos, muito santinhos, não quer dizer nada. Se o espaço que a Igreja devia reservar ao acolhimento dos mais necessitados (a acção sociocaritativa) não estiver a fazer o seu papel ou se estiver transfor-mado em mero negócio, vai mesmo tudo abaixo, ...e à bordoada.

Aliás, nem de propósito, o Dia Cáritas deste ano lembra-nos de um modo muito particular os estrangeiros que procuram o nosso país para ga-nharem o seu sustento - os imigrantes. À falta de outro teste para sabermos até que ponto poderíamos apanhar com algumas no costado, podemos começar por aí - como estamos a acolher os imigrantes? (Neves)