Subir a Jerusalém
Nota Pastoral do Bispo de Coimbra sobre os caminhos da Quaresma
1. «Vamos subir a Jerusalém». Com estas palavras o Senhor Jesus conduziu os discípulos para a sua Morte e Ressurreição, acontecimentos histórico e divinamente decisivos que haviam de ser o fundamento da nossa fé e a salvação da humanidade.Com a mesma orientação a Igreja nos convida agora a viver a Quaresma, de modo a recebermos a graça e a alegria da Páscoa.
(...)
2. Tomemos consciência de que esta experiência fundamental dos primeiros discípulos a precisamos de fazer também nós, os cristãos do Séc. XXI. Não por ser ritualmente lembrada no calendário, mas pela real situação que a Igreja agora experimenta nesta Europa, na nossa Diocese.
Embalados que andávamos na confortável tradição de uma fé respeitada e de uma prática geralmente aceite, sentimo-nos hoje como os Apóstolos: reduzidos, inseguros, conscientes das nossas culpadas limitações.
A palavra convicta da Igreja é o apelo forte de Cristo: "Convertei-vos".
Deixemo-nos conduzir também nós pelo Senhor Jesus, que nos levará ao essencial: morrer para o pecado e com Ele ressuscitar para uma vida pessoal mais santa, uma partilha comunitária mais imbuída de amor.
3. São de todos nós bem conhecidos os caminhos por onde o Senhor nos conduzirá: oração mais fiel, participação mais certa nos actos da comunidade, correcção de atitudes desviadas, purificação da vontade por actos de desprendimento e, acima de tudo, maior dedicação aos irmãos. Em resumo, ouvir mais a Deus e crescer no amor a Ele e ao próximo.
Este próximo será primeiramente quem vive e trabalha connosco. Mas o Santo Padre, na sua mensagem para a presente Quaresma, adverte-nos de que próximo de cada um de nós são-no todos os homens e povos da Terra, particularmente "as multidões famintas de alegria, de paz, de amor". Temos de converter o nosso coração para que possamos olhar o mundo com os olhos de Cristo, que intuía em cada um a fome que o atormentava.
Também hoje há fomes do corpo, fomes de amor e de
convivência, fomes de paz,
fomes de verdade, fomes de Deus. E o Papa avisa-nos de que «não é possível de modo
algum separar a resposta às necessidades materiais e sociais dos homens da satisfação
das necessidades profundas do seu coração».
4. Por isso, "subamos a Jerusalém" dando as mãos a muitos outros que precisam de nós. Rezemos insistentemente por tantos que andam transviados. Demos aos irmãos aquele amor desprendido e criativo de que nos fala também o Santo Padre na sua última Encíclica; aquele amor que é «êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si» ("Deus é amor", n.º 6).
Que nas comunidades cristãs da nossa Diocese os irmãos se motivem uns aos outros na prática de actos de amor. Para que assim aconteça, O Bispo de Coimbra propõe à Diocese dois objectivos: dar aos que vivem em solidão, seja física ou emocional, o calor e a alegria da presença amiga, cumprindo assim o que nos propusemos no Programa Pastoral para o presente ano (n.º 21); e ajudar a Diocese de Benguela, em Angola, a pagar as obras dos seus Seminários, de onde têm vindo sacerdotes que nos ajudam.
5. A Mãe de Jesus subiu a Jerusalém. Viveu com seu Filho o mistério da entrega e da alegria pascal. Junto dele, Maria é nossa Mãe a interceder. Por isso em Maio ao seu Santuário de Fátima pedir que rogue por nós e nos mereça a alegria de mais vocações de consagração.
Que ela interceda também ao longo do caminho quaresmal, para que todos sejamos Mais santos. É disso que necessita a Igreja diocesana e é para isso que celebramos a Páscoa do Senhor.
Coimbra, 26 de Fevereiro de 2006
Albino Mamede Cleto
Bispo de Coimbra